A importância de nada fazer

Maria acordou às 6:30h, mal abriu os olhos começou a planear os próximos passos do dia, vou arranjar-me, tratar do pequeno-almoço da família, estender a roupa que ficou a lavar durante a noite, acordar as crianças, fazer a lista de compras para o meu marido, o que vou fazer para o jantar? levar as crianças à escola…

Está sentada na secretária de trabalho, depois de 1h no trânsito, organizar as tarefas, planear sessão de formação da equipa de 12 pessoas, responder a emails, vai almoçar. O restaurante está cheio, há filas, pede uma sandes, uma sopa e um café. Come no meio do barulho enquanto espreita o facebook e vê o evento – Palestra de Feng Shui com Suzana Mendes – que interessante, gostava de ir – pensa a Maria.

Volta ao trabalho, senta-se na secretária, mais emails, telefonemas, à tarde reúne-se com a equipa de marketing. Alonga o trabalho até às 19h, pois se for antes vai apanhar mais trânsito.
Chega a casa às 19:45h e começa a preparar o jantar enquanto o marido dá banho às crianças.
Jantam, conversam um pouco, arrumar a cozinha com o telejornal como “música de fundo”, deitar as crianças, depois o sofá com umas bolachas a ver um filme onde está pseudo-parada.
Quando se deita pensa: não tive tempo de ir à palestra de Feng Shui.

E a rotina instala-se, entrecortada por umas férias em Cabo Verde, uns fins-de-semana prolongados no Alentejo ou em Londres, férias essas também de tirar o folego pois anda-se daqui para ali a fazer coisas diferentes.

A Maria é personagem fictícia que ilustra um estilo de fazer, de viver a vida. Um estilo que está sempre em acção e o parar é ilusório.
Ter uma vida activa é saudável, o cerne da questão não está na quantidade do fazer, mas na forma como se faz, ou seja, quando uma vida é vivida de uma forma mecânica, com muitos objectivos e poucos sonhos, num ritmo sem relação profunda com o propósito pessoal, com o nosso íntimo, torna-se uma vida oca, dá-se uma espécie de vazio, daí os sofrimentos causados por falta de compreensão perante os resultados das nossas escolhas, daí as depressões pelo sentimento de impotência, daí outras doenças por causa da frustração, daí os vícios como a necessidade de evasão.
Fazer é uma coisa, Ser é outra. E Sendo sabendo que se É e ir reencontrando quem se É, o fazer torna-se belo e enche o coração e o espírito de satisfação.
E para Sermos, temos que fazer e não fazer.

O não fazer, a suposta não-acção, é extremamente útil para ouvir a voz interior, a linguagem do coração, pois estar em sintonia connosco é fundamental para sermos conscientes do nosso propósito, sabemos representar bem o nosso “papel” e ter calma para a vida, aquela doce paciência de uma mãe ternurenta que não ralha quando entornamos o copo de sumo na toalha nova.
É por isso que meditar faz tão bem. Mas mesmo para quem não conhece métodos de meditação, basta parar e deixar-se estar num estado contemplativo e sentir no corpo de células de água e impulsos elétricos a gratidão, sentir a magia da vida, sentir a energia pessoal.

Daí ter começado a verificar que há sempre algo de positivo nos trânsitos planetários retrógrados que costumam ser vistos como trânsitos negativos.
Por exemplo, neste momento Marte, que é o senhor da acção, do 1º impulso, da assertividade, estando retrogrado faz desacelerar o ritmo da acção. Estar no momento do agora é, por exemplo, perceber que benefícios podemos retirar das influencias astrais que estão a decorrer.

É um momento oportuno para ir desacelerando e parar e não ficar com ansiedade porque as coisas “não andam para a frente”.
A oposição entre a ação e a não acção é muitas vezes vista como o reverso da medalha, o mito da dualidade entre o bem e o mal.
Mas porque não unir em paz os 2 lados e ser dia = acção e ser noite = não ação também?
Uma metáfora para ilustrar a importância de desacelerar, parar, contemplar, aceitar, receber, descansar, repor energia para renovar.
Este post é um convite a parar.

Pois parar traz inúmeros benéficos para a nossa saúde física, emocional e psicológica.
Parar e mergulhar em nós é o que dá pujança para nos expressarmos – a tal acção – de forma plena, aquela forma que faz sentido, que nos faz sentir bem na nossa pele, contentes, gratos.
E como podemos parar num cenário com tantas tarefas, desafios e surpresas?

As respostas são variadas: Não tenho tempo. Não posso. Não dá. É muito difícil. Não consigo. Tenho tempo para parar quando morrer. O que é parar?
Eu também já pensei mais ou menos assim, dormia em média 6h porque acreditava que dormir era perder tempo. Estudava, trabalhava e convivia tudo ao mesmo tempo. A cabeça não parava, escrevia, estudava, mudava de trabalho, tinha 2 trabalhos, pensava, falava, deduzia, analisava, criticava, desenvolvia, e percorri km e km a pé as ruas de Lisboa. Tudo acção, acção para fora.

Um dia fiquei grávida. E foi tão forte que parei, parei de trabalhar e até de comer, pois vomitava tudo nos 4 primeiros meses, dormia tanto, em todo o lado, no carro, na sala de espera do consultório, no sofá, na mesa da cozinha, parecia a bela adormecida. No final da gravidez não conseguia dormir, doíam-me as costas, as pernas, sentia os órgãos esmagados.
Foi nessa altura que parei, parei para me sentir, sentir o poder de criar vida, sentir o enjoo, tipo limpeza, o desconforto tornou-se íntimo e o sofrimento parecia nobre. E quando me sentava na varanda, o único local da casa em que não sentia os cheiros com tanta intensidade, observava o mar, as nuvens a correr no céu, os belos pores-do-sol, ouvia os sons, sentia a brisa ou o vento, sentia a respiração, olhava no vazio. Parava.

Foi desde esta experiencia que comecei a perceber a importância de parar, passei a introduzir paragens na minha vida, no meu dia-a-dia, todos os dias, uns dias mais, outros menos, mas todos os dias paro, nem que sejam 1 minuto quando acordo, 1 minuto na casa de banho, 1 minuto enquanto cozinho e 5 minutos ao deitar. É uma média 8 minutos por dia.
Pare. Escute. Olhe.
Parar, sentir, contemplar.
Como se faz?

Cada pessoa é um mundo de possibilidades, este post é somente uma partilha de uma experiência pessoal. Sinto-me mais tranquila, preenchida, feliz. Quando situações de vida mais chatas acontecem, aquelas que chamamos de problemas, a forma como lidamos com elas é completamente diferente, é desafiante, com emoção, mas com menos sofrimento ou até mesmo com ausência de sofrimento quando se percebe que tal “má ocorrência” é apenas resultado de uma escolha nossa, muitas vezes feita inconscientemente, resultado esse que traz sempre um ensinamento.
Este equilíbrio entre acção e não acção tem trazido oportunidades de viver quem sou, de mergulhar em mim, de estar em mais sintonia e em paz.
Por isso, este post não é necessariamente um ensinamento de como se faz para parar, é um convite para ir parando, é um estímulo para que descubra o seu “estilo” pessoal de parar.

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Suzana Mendes
suzanamendes@luanova.pt

Suzana Mendes: Consultora de Feng Shui Tradicional e de Astrologia Chinesa Ba Zi, recomendada pelo Feng Shui Institute de Inglaterra e EUA. Autora, facilitadora e palestrante. Pratica Feng Shui desde 2009.



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