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Somos aquilo que damos e não aquilo que temos

Somos aquilo que damos e não aquilo que temos.

Somos o que sentimos e não o que reprimimos. 
Somos completos e inteiros em nós mesmos mas somos seres de vínculos e é neles que somos o nosso melhor e/ou pior. É na, com e pela vinculação que nos descobrimos.

Em ultima instância, só somos em relação afetiva ( afetar e ser afetado) com os outros. É com eles que nos construímos e passamos a existir. São eles que nos trazem notícias de nós.

A forma como esta vinculação se deu desde que nascemos possibilita a defesa que nos permite viver. Esquemas, respostas, padrões. Adaptados e adaptativos que são então generalizados pelo nosso cérebro possibilitando a aprendizagem e a sua retenção para evocação futura sempre que necessária.

 

A vida e os traumas que registamos – sendo que o trauma não é o evento fora de nós, mas sim a forma como somos afetados por ele, a interpretação (interpretação = «[do] lat[im] interprĕtor, āris, ātus sum, āri, “explicar, traduzir; compreender; avaliar, decidir”») que damos ao estimulo exterior – vão validando as aprendizagens ou vão desconstruindo o aprendido para dar lugar a novas aprendizagens, esquemas, padrões… estes serão sempre os necessários à nossa sobrevivência imediata, e por isso são criados inconscientemente como proteção.

A questão é o apego. Apegamo-nos sem saber a essas couraças defensivas (sempre a generalização em ação, uma característica neuronal do nosso cérbero): agarrarmo-nos a elas para lá do necessário vai tornar-nos reféns funcionais do medo do afeto, ou tememos afetar, ou tememos ser afetados…porque essa afetação no passado foi de tal forma insuportável que enrijecemos em tensão total para evitar sentir. Sentir no sentido de estar em contato com a emoção até ela vazar por completo e deixar de doer. Algo intolerável no momento da afetação ou nos momentos posteriores em que as ondas de choque colaterais ainda agitam o nosso ser físico, mental e emocional… e este que é o nosso mecanismo de proteção acaba por ser a maior armadilha que, poderá até levar ao conhecido estado de “morto em vida”.

A vida perde o sabor, a cor, a efervescência. Daqui resultam vários comportamentos adaptativos, entre os quais o escapismo através de substâncias, consumismo e necessidade constante de afirmação, ocupação excessiva do tempo, obsessão com o trabalho ou exercício físico ou um hobby, entre outras.

Contudo, a projeção comportamental mais perigosa desta ferida é sempre o comportamento que nos parece perfeitamente funcional…pois esse mascara totalmente a ferida e a couraça e permite que continuemos funcionais nas nossas vidas –
exceptuando o sentir o afeto, afetar e permitir-se ser afetado -, sem que nada façamos para mudar, seja por ignorarmos o mecanismo, seja por termos sempre uma desculpa para procurarmos fora o alivio que só pode ser encontrado dentro.
Até que um dia o corpo somatiza o que o coração sangra.

Fugir do vínculo é uma derradeira fuga de nós mesmos e sintoma de uma dor profunda, de uma ferida não tratada e infectada por ser ignorada, que carece de atenção e cuidado. Aceitar é o primeiro passo para limpar (purgar não é agradável mas necessário) permitindo, enfim, a cicatrização do passado e abrindo espaço para vivermos com mais leveza e gentileza o presente, e olharmos o futuro com paz e esperança.

Cristina Fernandes

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