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Os comportamentos: assertivo, passivo, agressivo e manipulador

O comportamento assertivo é  aquele que envolve a expressão directa das  necessidades ou preferências, emoções e opiniões sem que, ao fazê-lo,  experiencie ansiedade,  e sem ser hostil para o interlocutor. É,  por outras palavras,  defender os próprios direitos sem violar os direitos dos outros.

O comportamento passivo é aquele em que a pessoa falha na expressão das suas necessidades ou preferências, emoções e opiniões. A pessoa que tem este comportamento é a primeira a violar os seus próprios direitos, acabando por dar ao outro a permissão para, também ele, o fazer.  É o que acontece quando se acede a fazer algo que não quer fazer, ou quando concorda com algo com que não concorda realmente.

O comportamento agressivo é aquele em que a pessoa expressa as suas necessidades ou preferências, emoções e opiniões, mas de uma forma que é hostil, exigente, ameaçadora ou punitiva para com o interlocutor. A pessoa que tem este comportamento defende os seus direitos, mas fá-lo à custa da violação dos do outro.

O comportamento manipulativo  é aquele em que a pessoa expressa as suas necessidades ou preferências, emoções e opiniões de uma forma implícita ou indirecta, frequentemente com «mensagens mistas», em que há contradições no conteúdo ou entre o conteúdo e o comportamento não verbal. É o caso de mensagens cujo objectivo é levar o interlocutor a adivinhar o que quer dizer ou a sentir-se tão mal ou responsável pela pessoa que fará o que ela quer, ainda que contra a sua vontade. A pessoa que tem este comportamento procura a satisfação das suas necessidades violando os direitos dos outros, mas fá-lo de forma indirecta e velada.

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NINGUÉM é 100% assertivo com todas as pessoas e em todas as situações. Para cada pessoa, a facilidade em ser assertiva depende muito da pessoa a quem esse comportamento se dirige (pais, professores, amigos, namorado/a, crianças, etc) e da situação em que se encontra (auto-afirmação, expressão de sentimentos positivos, expressão de sentimentos negativos, etc). Quando muito, pode-se dizer que a pessoa assertiva é capaz de se comportar com assertividade com muitas pessoas e em muitas situações. Mas não com todas as pessoas e em todas as situações. Afinal de contas, somos humanos.

A assertividade não é uma capacidade inata, pelo contrário, é algo que não é natural ao ser humano. O que acontece é que as aprendizagens que uma pessoa fez ao longo da vida conduzem a que, no momento actual, ela tenha ou não a capacidade de se comportar de forma assertiva. Há, muitas das vezes, que desconstruir crenças e ressignificar eventos do passado, para que se desbloqueiem medos e traumas que estão a impedir a capacidade de aprender a ser assertivo e de se manifestar assertivamente.

A assertividade é uma escolha. Da mesma forma que determinada pessoa aprendeu a comporta-se de forma não assertiva, pode aprender um conjunto de competências que lhe permitam comportar-se com maior assertividade. Que vantagens tem em fazê-lo?

A resposta a esta questão pode ser dada, em primeiro lugar, pela análise das consequências de cada tipo de comportamento. É importante não esquecer que os comportamentos que temos não ocorrem num vácuo – eles repercutem sobre a pessoa que os tem e sobre aquele que os recebe, quer de forma imediata, quer a longo prazo. O que acontece é que, ainda que os comportamentos não assertivos tenham, a curto-prazo, algumas consequências positivas para o próprio (que é, aliás, o que explica que se mantenham), as suas consequências são, num balanço global, negativas; os comportamentos assertivos são, por outro lado, quase universalmente vantajosos.

A assertividade, depois de aprendida, poderá vir a ser mais uma ferramenta, de entre o conjunto de que já dispomos. Nada  obriga a  utilizá-la, mas caso ela se venha a revelar necessária, é bom saber que a temos.

A primeira mudança é interna, e passa por adquirir conhecimento dos direitos que nos assistem (e, igualmente, a cada uma das pessoas que nos rodeiam).  Um bom conjunto de direitos, que devemos ter em mente, e até afirmar diariamente, pode ser:

– Eu tenho o direito de ser respeitado e tratado de igual para igual, qualquer que seja o papel que desempenho ou o meu estatuto social

– Eu tenho o direito de manter os meus próprios valores, desde que eles respeitem os direitos dos outros

– Eu tenho o direito de expressar os meus sentimentos e opiniões.

– Eu tenho o direito de expressar as minhas necessidades e de pedir o que quero

– Eu tenho o direito de dizer não sem me sentir culpado por isso

– Eu tenho o direito de pedir ajuda e de escolher se quero prestar ajuda a alguém

– Eu tenho o direito de me sentir bem comigo próprio sem sentir necessidade de me justificar perante os outros

– Eu tenho o direito de mudar de opinião

– Eu tenho o direito de pensar antes de agir ou de tomar uma decisão

– Eu tenho o direito de dizer «eu não estou a perceber» e pedir que me esclareçam ou ajudem

– Eu tenho o direito de cometer erros sem me sentir culpado

– Eu tenho o direito de fixar os meus próprios objectivos de vida e lutar para que as minhas expectativas sejam realizadas, desde que respeite os direitos dos outros

Há que ter também em conta algumas coisas que pode estar a dizer a si próprio, e que podem estar a tornar difícil comportar-se de forma assertiva.

– Não tenho o direito de recusar pedidos aos meus amigos

– Não tenho o direito de fazer pedidos às outras pessoas

– Não tenho o direito de discordar com os outros, particularmente com a autoridade

– Não tenho o direito de ficar zangado, particularmente com as pessoas de quem gosto

– Tenho que ser amado ou, pelo menos, admirado por todos os que me rodeiam

– Tenho que ser perfeito e nunca cometer erros

– Se eu criticar a pessoa X, coisas terríveis poderão acontecer

Se algum destes pensamentos reflecte uma crença sua, submeta-o a uma análise racional. Isto pode ser feito quer invertendo as perspectivas das pessoas envolvidas (aquilo que vale para si também vale para os outros?), quer procurando factos que o sustentem ou desconfirmem (que provas tenho de que isto é verdade?), quer questionando o seu valor prático (em que é que viver de acordo com este pensamento me tem ajudado até aqui?).

Se o pensamento não sobreviver a esta análise, então, mais vale pô-lo de parte… Em alguns casos, contudo, a análise sugerida não chega para neutralizar estes pensamentos, e eles continuam a surgir, bloqueando o comportamento assertivo – nestes casos, considere a possibilidade de interromper este pensamento e agir (assertivamente) como se este não existisse – esta acção pode parecer um tiro no escuro, mas os seus resultados vão, frequentemente, demonstrar por si só que, afinal, o pensamento não se justificava.  Não se esqueça que estes pensamentos são automatismos que gravou ao longo da sua vida e que, agora, disparam automaticamente, mas que foram aprendidos.

O passo seguinte é  defender os seus direitos de uma forma eficaz. Isto requer a aquisição e treino de um conjunto de aptidões. Há várias técnicas para o fazer,  escolha aquelas que mais sentido lhe fazem e que serão mais úteis e adapte-as ao seu estilo pessoal.

Por exemplo, para ser claro, conciso e específico, diga aquilo que quer realmente dizer, de uma forma o mais directa possível. Se necessário, dê exemplos que ilustrem aquilo que quer dizer. Não pressuponha que a outra pessoa já sabe o que quer apenas porque o sugeriu ou deu umas pistas – o outro não sabe ler o seu pensamento.

Não faça prefácios ás suas frases ou pedidos com desculpas, justificações ou coisas irrelevantes, falando muito para dizer pouco – o receptor recebe uma mensagem pouco clara e pode interpretá-la mal ou interromper-te antes que você acabe.  Se uma resposta clara não for obtida, a repetição é adequada.  Em vez de «Lembras-te que fizemos uma reunião de grupo há uns tempos? Aquela a que tiveste de faltar? Será que o Luis te deu a informação?»  Dizer «Combinámos que passarias os gráficos no computador até hoje. Já estão prontos?»

Usar frases na 1ª  pessoa é importante. Não há assertividade sem EU – dizer «eu»  significa que assume a responsabilidade pelos seus pensamentos,  sentimentos e acções e que não culpa os outros. Em vez de «tu irritas-me», dizer «eu sinto-me irritado».  Em vez de «tens razão», dizer «eu concordo» . Em vez de «sabes como é, ninguém consegue decidir sobre estes pontos, não é?», dizer «eu estou a ter dificuldade em decidir.»

Empatizar é também necessário. Reconheça o que o receptor diz sobre a sua situação, dificuldades, sentimentos e opiniões – ele saberá que o está a ouvir e a prestar atenção ao que é importante para ele, e isto constrói a compreensão entre os dois

A: Podes-me dizer se consegues ter a tua parte do trabalho pronta até para a semana?

B: Tenho pena, mas vou ter um teste e pode ser que haja atraso

A: Eu compreendo que isto te vá criar dificuldades (empatia), mas já estás atrasado uma semana e eu gostava de ter o assunto terminado dentro de uma semana.

Respeitar os outros é fundamental. O outro, como você, tem uma opinião e sentimentos sobre as situações. Quando critica alguém ou rejeita um pedido, mostre que, não se trata de um ataque pessoal a esse alguém como um todo, está sim a dizer algo de específico ao comportamento/pedido em questão.

A: «Fico contente por teres percebido as tuas tarefas tão rapidamente, mas estou preocupado com a tua pontualidade. Podes fazer o possível por chegar às 09:30?» (apreciação seguida de crítica construtiva e pedido de mudança)

ou ainda

A: «Vamos tomar um copo depois das aulas»

B: «Hoje não vou, mas gostava de falar um bocado contigo depois das aulas, noutro dia. (rejeita o pedido e mostra apreço quando sugere adiar para outro dia).

Se não lhe agrada alguma coisa que o outro fez ou sente-se prejudicado por ele, peça-lhe que mude o seu comportamento.  Esta técnica é usada frequentemente quando fazemos uma crítica construtiva ou quando lidamos com comentários destrutivos.

A: «Estou aborrecido por não me teres dado o recado do Luís logo de manhã. Gostava que, de futuro, escrevesses as mensagens em vez de as decorar (crítica construtiva com pedido de mudança de comportamento).

ou ainda

A: «Por favor, não me critiques em frente ao grupo»

B: «Estás a ser demasiado picuínhas»

A:  «Quero que isto fique exacto. Por favor, não me descrevas como picuínhas»

Predisponha-se para mudar. Depois de aceitar a crítica de alguém, se quiser, ofereça-se para mudar o seu comportamento.

B: «Penso que a tua apresentação foi muito comprida»

A: «Concordo. Vou repensá-la e cortar o tempo para metade» (oferecer-se para mudar).

Cerca de 70% daquilo que o receptor percebe da mensagem é fornecido através do comportamento não verbal do emissor – a linguagem corporal adequada confirma e sublinha o que se diz, pelo que deve ser concordante com o conteúdo da mensagem. Inclui aspectos como:

– Distância entre as pessoas que seja confortável para si e para o outro, o que depende da situação e do grau de familiaridade. Se sente que a altura do outro o coloca em desvantagem, sugira que ambos se sentem para falar.

– Postura corporal estável e descontraída – direita mas não rígida.

– Gestos expressivos mas não excessivos, evite os gestos distractivos como tamborilar e roer as unhas, e os gestos que perturbam a comunicação, como colocar a mão à frente da boca ou cruzar os braços.

– Expressão facial concordante com aquilo que está a dizer e, particularmente, com os sentimentos que está a expressar – se está zangado, mostre-se zangado, se está feliz, sorria.

– Contacto visual directo mas não excessivo – evite fugir ao contacto visual, mas não fique a olhar fixamente, com um ar «embasbacado» ou hostil, para o outro.

– Utilização da voz e de um discurso seguro e fluente, num ritmo adequado e estável e num tom suficientemente alto para ser perceptível mas não tão alto que se torne irritante, e com uma entoação consistente com o conteúdo verbal. Procure responder à outra pessoa com rapidez, mas não demasiada, ou seja, sem hesitar durante muito tempo mas também sem a atropelar. Faça silêncios quando for adequado ou enquanto pensa no que vai dizer, e não preencha as pausas com não-palavras como «hãããã», «pronto» (ou «prontos»), «estás a ver», etc.

A assertividade não garante que não ocorram de conflitos entre duas pessoas; o que acontece é que, se duas pessoas em desacordo comunicam de forma assertiva, é mais provável que reconheçam que existe um desacordo e tentem chegar a um compromisso ou, simplesmente, decidam manter a sua posição respeitando a do outro. Em todo o caso, só você é responsável pelo seu próprio comportamento – se a outra parte do conflito decidir comportar-se de forma não assertiva, o problema é dela. As acções ficam para quem as pratica, faça a sua parte e fique em paz consigo mesmo.

Quanto mais assertivo você for, melhor vai lidar com os confrontos, terá menos ansiedade e stress, mais confiança em si mesmo, saberá agir com mais sensibilidade, melhorará a sua credibilidade, saberá lidar com as tentativas de manipulação, chantagem emocional,  etc. Enfim, vai sentir-se melhor e contribuir para que os outros também se sintam melhor.

Resta dizer que sem assertividade, a comunicação não flui nem se efectiva concretamente, levando a uma série de problemas que não existiam no início da situação ou da troca de mensagens, o que leva a um acumular de tensões. Este panorama é frequentemente atestado na Terapia Familiar, quer para casais, quer entre pais e filhos; e no meio laboral.

Adaptado por ​©  Cristina Fernandes de Assert yourself, M.D. Galassi e J.P. Galassi, Human Sciences Press

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