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O papel dos pais e os limites adequados à idade dos filhos

Quantos problemas seriam evitados se os pais entendessem que o seu papel passa pela definição de regras e limites – simples, claras, consistentes e sempre adequadas à idade dos filhos.

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uma criança que cresce sem limites não é nem livre nem feliz, ela encontra-se sim num permanente estado de angustia, refém dos seus impulsos que não sabe controlar e em constante perigo. Onde não há limites nem regras há a sensação que tudo pode acontecer. Sem limites, a criança está sempre à espera de qualquer ameaça que não sabe de onde pode surgir. Não se sente protegida. Não é por acaso E consequentemente não se sente amada. Mais que isso, não se sente merecedora de ser amada.

A maioria dos pais tenta estabelecer os limites segundo a sua intuição, segundo os métodos em que eles próprios foram educados ou conforme a disposição ou tempo que têm no momento, não excluindo os que optam por satisfazer todas as vontades à criança para não terem que se aborrecer com ela ou porque, “coitadinha da criança”, a vida é já tão complicada que terá tempo de sobra para sentir as contrariedades e as frustrações. ( Há ainda aqueles que desenvolvem uma verdadeira obsessão pelo Não e pela punição, transformando aquilo que deve ser saudavelmente integrado numa verdadeira tortura traumática, é o outro extremo da situação).

Esta forma de agir não ajuda a criança a desenvolver-se saudavelmente. Pelo contrário, está na raiz de graves problemas sentidos mais tarde.
No que toca ao aspecto psicológico, o respeitar as regras e estabelecer limites tem uma função estruturante na mente da criança, desde que sejam claros, coerentes, firmes, constantes e consequentes. A criança precisa de conhecer até onde pode ir para sentir-se mais confiante e desenvolver a sua auto-confiança, porque isso fá-la-á sentir-se mais segura.

Não deixe que os mal-entendidos e as transgressões se acumulem. Os limites que forem estabelecidos à criança têm de ser ditos de uma forma clara e firme para que ela compreenda bem que não devem ser ultrapassados. Se a criança for madura o suficiente, estes limites podem ser negociáveis dentro do razoável, caso contrário, basta dizer “não” e face ao recorrente porquê, responder-lhe de forma clara a razão, e depois (há sempre um depois), repetir as vezes que forem necessárias a razão (mais uma vantagem de a razão ser clara e curta). E ponto final. Quantas vezes não se deixam os pais vencer pela exaustão causada pela persistência infantil?

Na ânsia de serem os melhores amigos dos filhos, os pais esquecem-se de um papel que apenas eles podem desempenhar na vida dos filhos…o de Pais!!

Se a criança ainda for pequena ou se não souber ainda reconhecer a autoridade, ela não precisa de explicações nem de negociações.
Mas “Porque quem manda aqui sou eu” não é também uma resposta aceitável. Este tipo de resposta vai incutir na criança o sentimento de inferioridade que também não a ajuda a desenvolver-se de forma harmoniosa. Ela sabe muito bem que não tem qualquer hipótese perante a firmeza de um “não” parental. Alongar a explicação poderá confundir mais a criança.

Os pais também devem estar conscientes de que a criança quando reconhece os limites que lhe foram postos vai, de vez em quando, testar a solidez deles e a resposta tem que ser sempre a mesma: “Não!”consistência é o ingrediente de ouro. A atitude de testar os pais e os limites aprendidos é normal e saudável. Demonstra que terá, mais tarde, capacidade para argumentar, para expor as suas razões, para reclamar. Um ser humano não é constituído para obedecer cegamente como se fosse um robot, mas para se tornar responsável pelos seus actos. Quando a criança ultrapassa o estabelecido, a tarefa dos pais também consiste em voltar a avisá-la que os limites se mantêm e levá-la a continuar a cooperar.

Esta prática de estabelecer limites aplicada no dia-a-dia da criança desde cedo, vai evitar que os pais tenham de recorrer a castigos sempre desagradáveis para todos. Porém, se a criança tiver em qualquer momento um comportamento inaceitável, tem que se ter a coragem de lhe dizer que está triste com o seu comportamento, que esse foi uma escolha que ele fez conhecendo as regras, e que tem uma consequência.Essa consequência não tem que ser demasiado pesada, mas tem que ser aplicado no momento em que ocorre o desrespeito, senão as regras e a autoridade podem ficar comprometidas no futuro. E também não deve ser retirar à criança aquilo que ela mais gosta, pois ao fazê-lo está a abrir-se um campo de possibilidades de transgressões. Se retiramos o que elas mais gostam, qualquer transgressão seguinte ficará sem consequência efectiva visto que já se aplicou a consequência máxima.

À medida que a criança cresce as regras podem e devem flexibilizar-se e serem negociáveis, e é recomendável que a criança seja envolvida nesse processo, que participe no que se pretende restabelecer oferecendo-lhe, assim, uma liberdade de escolha, sempre dentro do aceitável. O proporcionar-se à criança o seu envolvimento no estabelecimento das regras aumenta a possibilidade de uma cooperação mais consciente e, mais facilmente, ela admitir o desagrado dos pais quando as infringir.

Ainda relacionado com esta necessidade de estabelecer limites há uma outra situação importante que a criança necessita de desenvolver, também com a ajuda dos pais: começar a percepcionar que os pais têm direito a terem o seu próprio tempo livre e onde ela não participa. Cada família estabelecerá esta norma dentro das suas possibilidades e que pode até ser diária.

Outro limite importante a ter em conta é: não permitir que os filhos interrompam a conversa entre o casal ou a conversa com terceiros. A criança precisa de perceber que existem relações – entre os pais, ou destes dom terceiros – que têm que ser respeitadas, e que ela não é o centro de tudo o que existe.

O dedicar-se exclusivamente aos filhos, estar com eles de “manhã-à-noite”, tornando a criança o centro das atenções sem que, de vez em quando, possam ter o seu próprio tempo, é meio caminho andado para tornar a criança num ser exigente e egoísta.

Cuidar e fortalecer a vida do casal ou, em situações monoparentais, o dedicar um tempo para si próprio não é ser-se egoísta. Da mesma forma, os pais também devem ter sempre bem presente de que o que a criança precisa de ter, em primeiro lugar, é de pais e não de amigos-pais. Os amigos têm de ser escolhidos pela própria criança à medida que for convivendo com outras.

Resumindo, a necessidade de estabelecer limites, de regras, é essencial para um desenvolvimento psíquico saudável da criança. É com base nisso que a criança estrutura as capacidades psíquicas necessárias e dificilmente ocorrerão surpresas desagradáveis porque sabe-se que ela, quando se deparar com obstáculos (os quais inevitavelmente surgirão), quer seja de ordem escolar, ou pessoal como, por exemplo, uma decepção amorosa, saberá responder de forma adequada. Porque terá desenvolvido as competências emocionais necessárias.

Toda a infância é um período de aprendizagem progressiva da condição humana, da descoberta da realidade, da vida em sociedade e, inevitavelmente, com deveres e obrigações, cujos pais participam incontestavelmente e dos quais não se podem desobrigar ou desresponsabilizarem-se.

Aplicar esta necessidade psicológica e as outras não é tarefa fácil, mas merece a pena pois criam-se assim estruturas psicológicas para que a criança consiga enfrentar os desafios da vida de uma forma positiva, de uma forma madura. É um caminho para humanizar a criança, para que possa ter poder de comunicação com os demais e para saber viver em harmonia.

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