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O que é o Ego?

O que é o Ego?

O ego existe em nós para nos ajudar. Para nos alertar. Para nos ajudar a crescer. Para nos defender. Para nos servir. O ego está ao nosso serviço. É quando perdemos a noção de ego que ele se inflama e cresce desmesuradamente, deixando de nos servir para se servir de nós. É quando não temos consciência dele, quando não o olhamos e não o vivemos na sua dimensão saudável.

Pode-se dizer que o Ego é simplesmente uma programação que garante a vida individual através da compulsão para a satisfação das suas necessidades mais básicas, como sono, fome, protecção, segurança, intimidade, auto-estima, entre outras questões. Esta programação é o que garante as nossas vidas até ao ponto em que estejamos preparados para descobrir que não somos o Ego em si mesmo, mas algo muito além disso. Como um software muito especifico que permite que o hardware funcione até que possa haver um upgrade. E um upgrade é mesmo isso, necessita do programa inicial para poder ser instalado, caso contrário pode estar lá mas não funciona. Fica algures perdido num ficheiro “temp” – existe, está lá, mas não tem aplicação prática. Soa familiar?

É comum vermos, ouvirmos e lermos verdadeiros ataques ao Ego, apelidando-o de tudo e classificando-o até como maléfico e capaz de esquemas mirabolantes para nos enganar, tudo porque o ego é individualista. Contudo, o ego está em nós justamente para isso, para nos guiar como indivíduos e garantir a nossa existência até que chegue o momento da auto-realização, ou seja o momento mais ideal para que experiênciemos aquilo que nascemos para realizar, para que cheguemos ao momento ideal de realizar a nossa missão de vida – a nossa auto-realização.

Abrahan Maslow dizia que o ser humano necessitava transcender a sua Psique (pessoal), conectando-se ao Todo, ou a outras realidades mais abrangentes (transpessoais). Mas que para isso acontecer havia todo um caminho a percorrer, para o qual o ego e também aquilo que ele apelidou de “core interno” têm um papel fundamental sem o qual nada feito. Daí um dos seus maiores contributos para a Psicologia Transpessoal ser a despatologização da psique. Maslow não catalogou como doenças ou estados de “escuridão” as manifestações do core interno do individuo, existentes em todos nós. Ao contrário ele elegeu-as como fonte de saúde psicológica e de criatividade, quando aceites, compreendidas e integradas.

Muito rapidamente e apenas para dar uma contextualização, poderá ser importante referir que as manifestações do “core interno” eram então (e continuam a ser catalogadas pela sociedade e comunidade médica) como “impulsos neuróticos” nocivos para nós. Contudo, Maslow provou através do seu trabalho com individuos “realizados” (que haviam completado a sua auto-realização do self) que são esses impulsos que nos podem colocar mais rapidamente diante do nosso potencial máximo, se não reprimirmos as suas manifestações ou os seus sinais. Para conseguirmos a nossa auto-realização devemos ser capazes de receber estas manifestações, aprendermos com elas e ouvirmos o que têm para nos dizer.  A pesquisa de Maslow indica que estas “vozes e impulsos” provenientes do “core self” podem por vezes parecer apenas “murmúrios subtis e delicados, que podem ser facilmente sufocados pelos ensinamentos da desaprovação recebidos da nossa cultura ou pelo medo da desaprovação e das sanções”, contudo: “a autêntica manifestação do self pode ser definida, em parte, como sendo apta para ouvir estas vozes-impulsivas interiores”. A integração é a chave do nosso processo.

Há então que compreender que é a aceitação e integração das nossas partes que permite a desconstrução conceptual necessária para que alcancemos a consciência abrangente sobre a nossa vida, levando-nos à tão desejada transcendência ou transpessoalidade do ser.

Voltemos ao ego. A piramide de Maslow é uma hierarquização que ilustra como as necessidades de nível mais baixo devem ser satisfeitas antes das necessidades de nível mais alto. Cada um tem de “escalar” uma hierarquia de necessidades para atingir a sua auto-realização. Este princípio não é novo, basta atentar nos ensinamentos dos Vedas (textos escritos em sânscrito por volta de 1500 a.c., que formam a base do sistema de escrituras sagradas do hinduísmo, representando a mais antiga literatura de qualquer língua indo-europeia).

Maslow define um conjunto de cinco necessidades descritas na pirâmide:

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1 – necessidades fisiológicas (básicas), tais como a fome, a sede, o sono, o sexo, a excreção, o abrigo;

2 – necessidades de segurança, que vão da simples necessidade de sentir-se seguro dentro de uma casa a formas mais elaboradas de segurança como um emprego estável, um plano de saúde ou um seguro de vida;

3 – necessidades sociais ou de amor, afeto, afeição e sentimentos tais como os de pertencer a um grupo ou fazer parte de um clube;

4 – necessidades de estima, que passam por duas vertentes, o reconhecimento das nossas capacidades pessoais e o reconhecimento dos outros face à nossa capacidade de adequação às funções que desempenhamos;

5 – necessidades de auto-realização, em que o indivíduo procura tornar-se aquilo que ele pode ser:

“What humans can be, they must be: they must be true to their own nature!” “O que os humanos podem ser, eles devem ser: Eles devem ser verdadeiros com a sua própria natureza.”

É neste último patamar da pirâmide que Maslow considera que temos que ser coerentes com aquilo que somos na realidade “… temos de ser tudo o que somos capazes de ser, desenvolver os nossos potenciais.”

Assim, as necessidades básicas deveriam ser cumpridas até que chegasse o momento de auto-realização. Contudo, muitos de nós chegam ao seu momento de auto-realização sem ter cumpridas todas as necessidade do modelo sugerido. E pode acontecer também que parte da realização de uma pessoa tenha exactamente como pré-requisito a ausência de algum desses elementos.

Os parâmetros, as regras, os modelos, devem ter flexibilidade para abrangerem as excepções e com elas também evoluírem. Quando se trata do ser humano não podemos perder a percepção de que o que é estático e rígido apenas serve para delimitarmos as tendências mais fortes, os traços mais comuns. É a ciência também que está ao serviço do ser humano enquanto espécie mas também enquanto individuo, logo, esta tem que ser maleável e adaptar-se e não o contrário. O mesmo se passa com as terapias de terceira geração ou terapias holisticas e o mesmo se passa com a Psicologia Transpessoal. A evolução da teoria de Maslow é um excelente exemplo disso mesmo.

Talvez agora seja mais simples pensarmos que, muitas vezes, para chegarmos ao nosso momento de auto-realização, precisamos passar e enfrentar situações de conflito e dualidade, de atrito, muitas delas baseadas no nosso ego e no ego dos outros. A negação e condenação do ego nada mais é que uma armadilha emotiva e até uma desculpa fácil, já que o ego é apenas um dos elementos necessários num jogo muito maior e complexo que é a nossa própria existência. Muitas das nossas acções baseadas no ego levam a conflitos cujos resultados irão alterar o caminho que estávamos a seguir, abanando as estruturas da vida que estávamos a viver e guiando-nos para uma profunda reestruturação das nossas crenças e da nossa vida, aproximando-nos mais da nossa essência se assim o permitirmos, de forma a tomarmos o caminho diferente que precisamos tomar – tudo isto embora não entendamos na altura porque está tudo a acontecer assim. E aqui entram então conceitos como a aceitação e a entrega, que em nada se prendem com a resignação e fatalidade.

Enquanto andamos distraídos a tentar matar algo que é nosso e que apenas necessita de ser integrado saudavelmente – seja o ego, seja o core interno -, abre-se espaço à proliferação daquilo a que chamo de espiritualidade cor-de-rosa, algo que comparo às aspirinas e benurons…aliviam a dor mas apenas se centram no sintoma. E a dor ou o desconforto existem para nos alertar de algo mais profundo que necessita de ser trazido à consciência para ser compreendido, desconstruído, ressignificado…enfim, trabalhado de forma a produzir uma nova energia possível de ser aplicada por aquele individuo naquele momento da sua vida, que o leve mais e mais a transcender-se. E aqui entra também a humildade e o respeito pelo processo de cada ser humano, de cada individuo…nem sempre presente.

As práticas mais antigas, onde os pais da psicologia transpessoal foram beber, não visavam a morte do ego, mas sim sua transcendência, tendo sempre presente que tudo o que vivênciamos é o que temos que vivênciar para lá chegarmos. Cada um de nós. Desconstruindo a dualidade do correcto e do errado, do bom e do mau. Todos os momentos são perfeitos em si mesmos, e levam-nos a seguir pelos nossos caminhos, com conflitos, com afectos, ou com o que for necessário para despertar o nosso entendimento, ajudando-nos a cumprir o nosso plano de vida aqui neste plano.

Abraham Maslow diz:

“Somos mais do que os nossos corpos físicos, porque somos mais do que matéria física” e “Nenhuma saúde psicológica é possível a menos que este “core” essencial de cada pessoa seja fundamentalmente aceito, amado e respeitado”.

E eu concordo em absoluto!

A Psicologia Transpessoal integra na sua génese e prática, conhecimentos e teorias tão vastas como a física quântica, antropologia, medicina, filosofia, neuro-ciência, biologia, sabedoria das grandes tradições da humanidade (budismo, taoísmo, hinduísmo, xamanismo, etc), behaviorismo, psicologia humanista, psicologia cognitivo-comportamental, abordagem fenomenológica, etc, etc etc (três vezes etc para reforçar a ideia que seria fastidioso enumerar aqui todas as fontes onde este ramo da Psicologia vai beber). A respiração holotrópica, a terapia bio-energética, a hipnoterapia, a meditação activa, a mindfulness, entre outras, são as ferramentas mais utilizadas pela Psicologia Transpessoal para que se alcance uma expansão de consciência que tem como meta o desenvolvimento integral do Ser Humano nas suas quatro dimensões: física, emocional, mental e espiritual.

A espiritualidade desenraizada é tão perigosa como a racionalidade desumanizada ou qualquer outra abordagem do ser humano que não o tome como um todo, mas apenas considere uma das suas partes, relativizando as outras. Todas deixam de fora uma parte. E nós estamos cá para integrar em equilíbrio, o Todo. Só assim podemos transcender. Só assim podemos Ser.

Nota: poderíamos falar de super-ego, id, e outras conceptualizações e teorias, contudo sou apologista do keep it simple, e a verdade é que o ego de que se fala comummente, na maioria das vezes, é uma mescla disso tudo.

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