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Há cura para a depressão?

Há cura para a depressão?

Vivemos por mais tempo e com melhor saúde do que há meio século, mas nem por isso somos mais felizes. Apesar das inúmeras opções de diversão, maior poder de compra e, aparentemente, de escolha, estamos cada vez mais insatisfeitos: a depressão será o problema de saúde pública mais comum do mundo em menos de 20 anos; 350 milhões de pessoas de todas as idades sofrem com o transtorno no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Atualmente, a depressão é vista como resultado da combinação de fatores endógenos (como hereditariedade ou a aprendizagem por observação/modelagem) e fatores de risco ambientais, como valores culturais e experiências emocionais. Os sintomas configuram-se de maneira diferente em cada paciente, de forma que não há um tratamento único. Seria muito simples pensar a depressão apenas como resultado da maior ou menor oferta de neurotransmissores. É mais correcto relacioná-la à interação desses agentes químicos – serotonina, dopamina, glutamato, e tantos outros. São vários caminhos neurais diferentes que, juntos, determinam cognição, interesse, vontade.

A depressão distingue-se da tristeza pela duração de seus sinais e pelo contexto em que ocorre. Por exemplo, é natural sentir-se triste e sem perspetivas após a morte de um ente querido, perda do emprego ou término de um relacionamento. Períodos de luto, de elaboração de experiências desagradáveis, acontecem na vida de qualquer pessoa e, normalmente, são superados – apesar de, atualmente, termos cada vez menos tempo e espaço para vivenciar a tristeza. Na depressão, porém, essa  sensação é duradoura. “Humor depressivo por mais de duas semanas, incapacidade de sentir qualquer prazer, tendência a sobrevalorizar eventos negativos são alguns dos sinais emocionais. Também há sintomas físicos, como problemas de sono, falta de apetite e dores difusas.

NEUROCIÊNCIA DO SOFRIMENTO
Dor e depressão têm uma via neuroquímica comum. Queixas de dor crónica não raro estão no centro de um círculo vicioso de depressão, ansiedade, stress e insónia. A literatura médica sugere que noradrenalina, neurotransmissor envolvido na regulação do humor, do ciclo de sono e na resposta de stresse, desencadeia eventos em cascata, que se manifestam em ansiedade, no início e, depois, em depressão. Mais de 60% dos episódios depressivos são precedidos por quadros de ansiedade, e a insónia crónica aumenta quatro vezes o risco de depressão. Já o stresse crónico leva à diminuição do fator de proteção neuronal, afetando a ramificação dendrítica dos neurônios. Consequentemente há morte de células e redução do volume – atrofiamento – de regiões cerebrais.

Estudos com a tecnologia de neuroimageamento apontam que, na depressão, há redução de atividade em áreas corticais, como córtex cingular anterior, área associada a funções como modulação de respostas emocionais, motivação e atenção. Em contrapartida, há maior metabolismo de áreas mais “primitivas” do cérebro, como a ínsula, -relacionada à sensação de repulsa, e do sistema límbico como um todo, com amplo papel no processamento de emoções negativas. De fato, um dos principais traços da depressão é uma maneira “acinzentada” de interpretar o mundo, que prioriza as perspectivas negativas. Duailibi cita o fenômeno Kindling na depressão: um evento stressante significativo desencadeia o primeiro episódio. Progressivamente, os quadros passam a ser desencadeados por eventos menos intensos ou mesmo sem motivo; é uma espécie de suscetibilidade crónica, que envolve alterações cerebrais, muitas ainda não elucidadas, e estímulos ambientais.

O tratamento mais comum, e de mais fácil acesso, ainda é o farmacológico. Contudo, se os medicamentos podem em alguns casos mais extremos ajudar a superar um episódio depressivo, a psicoterapia e o auto desenvolvimento e auto-conhecimento  ajudam a evitar a sua repetição ao longo da vida do paciente.

Terapias complementares e hábitos saudáveis que combatem o stresse ajudam a prevenir a volta dos sintomas: hipnoterapia, acupuntura, massagem, atividade física, alimentação rica em nutrientes e pobre em gordura animal, por exemplo, são de extrema importância no combate ao quadro depressivo, evitando a sua repetição.

EXERCÍCIO DE AUTOCOMPAIXÃO

Cada vez mais estudos comprovam o impacto positivo da visualização positiva sobre o humor. Uma pesquisa brasileira, publicada na Neuroimage, mostra que a técnica melhora o desempenho cerebral, especialmente em tarefas que exigem concentração. “O cérebro de pessoas que meditam, que praticam auto-hipnose e visualização positiva, recruta menos áreas cerebrais para realizar uma determinada tarefa, como se fizesse uma maior ‘economia’, o que se traduz em mais foco e concentração; um desafio no mundo cheio de estímulos em que vivemos.
O cérebro de pessoas com depressão está “habituado” a processos cognitivos que desencadeiam o problema, como pensamentos depreciativos sobre si mesmas. A visualização positiva através da meditação e da hipnoterapia ajuda o paciente a conscientizar-se e a ressignificar emoções, fantasias, lembranças e situações que passam pela sua mente consciente. Atualmente, cientistas por todo o mundo comprovam os benefícios da terapia cognitivo-comportamental (TCC) baseada na atenção plena (MBCT, mindfulness-based cognitive therapy), isto é, o uso de técnicas de meditação e de hipnose para potencializar os efeitos da terapia comportamental. Estas técnicas ajudam o paciente a perceber os velhos hábitos de pensar que levam a sua mente em uma espiral descendente de pensamentos negativos. Ele aprende a ser mais gentil consigo mesmo, a atentar para os aspectos positivos de seu cotidiano, exercitando o julgamento baseado na auto-compaixão.

 Dalai-lama Tenzin Gyatso: “A mente é como paraquedas: funciona melhor aberta”.

(texto adaptado de Fernanda Teixeira Ribeiro)

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