Artigos, Desenvolvimento pessoal

Estás com bom ar!… (A invisibilidade da doença!)

““Estás com bom ar!”, assim começam algumas conversas ao encontrar-me com algumas pessoas, que já não via há algum tempo e também iniciam, deste modo, algumas conversas com quem me relaciono diariamente! Sei que, de igual modo, se iniciam assim as conversas de tantas outras pessoas!

Entendo o sentido desta afirmação, pois nos últimos tempos atravessei algumas fases que alteraram a minha fisionomia, sendo notórias as alterações derivadas do cansaço e de um mal-estar constante! Entendo, de igual modo, a preocupação das pessoas que gostam de mim e querem que eu esteja e me sinta bem, entendendo a sua alegria ao repararem que “estou com bom ar” ou que “estou com melhor aspecto”, agradecendo essa mesma preocupação!
Sem querer desconsiderar as preocupações e as afirmações das pessoas que gostam de mim, escrevo este texto como um alerta, como um convite a uma reflexão, após ter conversado com algumas pessoas, que como eu, atravessam fases menos positivas associadas à doença com que convivem diariamente.
Tal como eu, muitas pessoas convivem com doenças invisíveis, ou seja, com doenças que apresentam várias manifestações, sem sinais visíveis e evidentes, apresentando de igual modo, uma sintomatologia tão diversificada e inconstante, que também pode ser transversal a outras tantas doenças e que acabam por servir como critérios para a elaboração de discursos quer de incompreensão quer de dúvida.
Para muitas pessoas o que não se vê, não existe, por isso se os sintomas e sinais de uma determinada doença não são visíveis a olho nu, se uma determinada doença tem uma grande componente sintomática emocional e se também apresenta uma sintomatologia muito diversificada, sendo difícil a sua classificação e a sua explicação, é porque mesmo que essa doença exista, grande parte dos sintomas poderão ser inventados por quem com ela convive.
É o que acontece, por exemplo, com as doenças do foro mental, emocional e físico (quando não existem valores/marcadores laboratoriais), onde se sente um elevado nível de incompreensão por parte de quem convive connosco, pois muitas vezes, baseiam-se na nossa aparência e/ou na nossa forma de estar, sem saberem a quantidade de máscaras que estamos a utilizar, para camuflar o desconforto que estamos a sentir, a vários níveis.
Evitamos qualquer tipo de queixume, sendo válido ou não, para não se originar uma corrente de pena ou de opiniões e conselhos que se baseiam no que se está a ver e não no que, quem convive com a doença, está a sentir.
Sim, existe uma diminuição considerável da nossa autoestima, do nosso amor-próprio, um aumento da nossa culpabilização e vergonha, como se fossemos culpados por nos sentirmos da forma como sentimos, mas ao mesmo tempo aumenta consideravelmente o nosso sentimento de incompreensão, pois não conseguimos explicar o que sentimos, não queremos e nem temos que o fazer, mas consideramos que poderia ser a única forma de, finalmente, sermos compreendidos.
Queremos que compreendam a diminuição do nosso interesse social, de conviver, sem que sejamos considerados anti-sociais, sem que nos deixem de convidar, só porque já negámos algumas vezes! Queremos que compreendam a nossa montanha-russa emocional, oscilando entre alegria e tristeza, sendo que não queremos que viajem connosco nessa montanha, mas que apenas, por breves momentos, pudessem calçar os nossos sapatos e caminhar, por mais curta que fosse a distância, o nosso caminho! Queremos que compreendam que passamos a ter limites que, até para nós, eram desconhecidos e que definem barreiras para os nossos movimentos e gestos, sem que tenhamos que ser considerados preguiçosos ou manhosos!
Sim, externamente podemos apresentar um ar “feliz” e saudável, os olhos iluminados, a cara com um brilho saudável, com o peso adequado (oscilando entre o perder ou ganhar), com os níveis de energia mantidos (se soubessem que algumas doenças se associam à hiperactividade…), porém podemos estar, naquele mesmo momento, a sentir dores muito intensas, a sentir um grande sufoco, a querer desaparecer e refugiar num recanto só nosso!
Nós, incluindo-me nesse grupo de pessoas que convivem com doenças invisíveis, gostamos de ouvir que estamos com bom ar, que parecemos mais saudáveis (comparando com outras fases menos boas), porém não queremos de todo que esse bom ar, seja o critério de avaliação (como se tivéssemos que ser avaliados pelo que quer que seja!) do nosso estado de saúde e seja a origem da corrente de incompreensão que determina algumas regras ou normas que prejudicam a nossa qualidade de vida.
Nós, de igual modo, não queremos que seja criada nenhuma rede de pena, para ficarmos ou nos sentirmos aprisionados, pois mantemos as nossas capacidades e habilidades (em todos os níveis), porém necessitamos de alguns ajustes e adaptações à nossa forma de estar, agir e sentir, para que assim possamos viver com a maior qualidade de vida possível.
Nós, queremos também alertar quem se relaciona connosco, de forma mais íntima ou não, para o “mundo” das doenças invisíveis onde muitas pessoas vivem, sem que ninguém saiba, sem que ninguém tenha propriamente que saber, mundo esse tantas vezes bombardeado com incompreensão, culpabilização, preconceitos e estereótipos, que não têm qualquer sentido, mas que podem vir a ganhar significados menos positivos, na vida de quem habita nesse “mundo”.
Nós, queremos também alertar que faz parte da nossa forma de viver a invisibilidade da doença, a diminuição das nossas queixas (constantes, extenuantes, dolorosas!), sofrendo em silêncio, num mundo de solidão inquietante e, em muitos casos, perturbadora, mundo esse delimitado pelas fronteiras da incompreensão, da rotulagem, da desconsideração, que levam ao nosso isolamento.
Sim, não nos queremos andar sempre a queixar, por mais que o nosso corpo e a nossa alma sintam um desconforto constante, porém queremos sentir que nos momentos em que precisarmos de desabafar, de gritar, de romper as barreiras do nosso mundo solitário, haverá quem nos Escute, nos Compreenda e nos Envolva num silêncio cúmplice a apaziguador.
O sentido e significado de uma doença invisível é muito vasto e individual para cada pessoa que com ela convive, pois nós muitas vezes, também gostaríamos de ser invisíveis, não para que não reparem em nós, mas para evitar que ao olharem para nós, sejam criados preconceitos, rótulos e mais estereótipos que apenas irão causar sofrimento a quem os sente!
Precisamos estar atentos às pessoas que nos rodeiam, de modo a sermos capazes de Olhar o Outro, tentando compreender o seu Viver, mesmo que seja secreto, mesmo que não sejam emitidos sinais, para evitarmos criar pensamentos sem sentido, expressões e atitudes que apenas possam magoar e, se não percebermos algo, podemos sempre perguntar para sermos informados ou podemos enveredar por uma demanda de conhecimento e informação.
A informação e o conhecimento são os melhores e mais fortes aliados da compreensão, da aceitação, pois só podemos compreender o que conhecemos e quando conhecermos algo, como por exemplo o mundo das doenças invisíveis, podemos então afirmar “Estás com bom ar”, sabendo que existe um vasto mundo além do ar que se apresenta!”
Ricardo Fonseca, 2016
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