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O que pode estar por detrás de uma situação de infertilidade?

Andreia Barros é formada em enfermagem e trabalha no Hospital de Gaia.
 Um ano após a conclusão do curso, foi “arrastada” por uma colega de serviço para um curso de massagem terapêutica e foi aí que teve o seu primeiro contacto com terapias não convencionais como o Shiatsu e a Medicina Tradicional Chinesa.

“Foi amor ao primeiro “toque”! Fiquei fascinada em como as nossas mãos (e mais tarde descobri até a nossa simples presença) podem ter tanto efeito terapêutico.”

Nos anos seguintes aprofundou os seus conhecimentos na área no IPN, aprendendo também Tui-na, auriculoterapia, entre outras.
Em 2011, concluiu no ICBAS a especialização em Medicina Tradicional Chinesa, a sua maior paixão!
Vamos conhecer um pouco mais sobre esta apaixonada pelas medicinas alternativas e especializada em acupunctura para a fertilidade.

Como surgiu o projecto “Ponto da Fertilidade”?
O Ponto da Fertilidade foi uma gravidez não planeada! (risos) O interesse pela área da fertilidade foi obra do acaso: tratei com sucesso uma amiga com abortos de repetição; e em simultâneo tratei uma senhora, por queixas de dor cervical e ansiedade, que durante o processo engravidou, embora ela não me tinha dito no início estava a tentar engravidar há mais de um ano! Estas experiências despertaram a minha curiosidade sobre o tema – fui à Amazon e encomendei vários livros sobre Medicina Chinesa na infertilidade, falei com professores, troquei e-mails com outros terapeutas… Apercebi-me que o uso da acupunctura em casos de infertilidade está muito difundido em países como o Reino Unido, os Estados Unidos, a Austrália, na Alemanha… Percebi que é um tema tão sensível como complexo, e senti que fazia todo o sentido dedicar-me a esta área. E depois, sabes quando parece que tudo se reúne e flui magicamente? Foi assim, no final de 2012 nascia o “Ponto da Fertilidade”.

Na tua visão, o que pode estar por detrás de uma situação de infertilidade?
Essa é uma enorme pergunta… A infertilidade é, a meu ver, um problema complexo e multifactorial, e deve ser tratado atendendo a esta complexidade. É aqui que a Medicina Tradicional Chinesa é diferente da convencional, que, a meu ver, tem uma visão muito redutora e mecânica: Junta-se “cá fora” o óvulo e o espermatozóide e depois mete-se outra vez “lá dentro”.
E pronto, devia ocorrer uma gravidez, certo?
Mas não acontece, 70% das vezes não acontece. E portanto tenta-se outra vez. E outra vez…
É um processo invasivo, que envolve toma de doses hormonais maciças, e que envolve uma dureza física e emocional que só quem passa por isso é que sabe.
Muitas vezes seria possível evitar chegar a este ponto com uma visão mais holística e paciente.
Por exemplo – o Síndrome do Ovário Poliquístico é uma disfunção hormonal com várias variáveis, uma das frequentemente associadas é a resistência insulínica, e no entanto, raramente se explora com estas mulheres a necessidade de uma alimentação específica, e outros aspectos do estilo de vida que poderão por si só restabelecer a ovulação ou regular o ciclo. Claro que esta abordagem implica tempo… difícil de implementar numa sociedade actual de “consumo imediato”.
Mas voltando à questão inicial – há muitas causas possíveis – baixa reserva ovárica, endometriose, obstrução das trompas, baixa contagem dos espermatozóides… mas a verdade é que alguns casos não têm explicação à luz da Medicina convencional.
Somos sujeitos a tantas agressões externas: os químicos na comida que ingerimos, a poluição no ar que respiramos, o stress a que somos sujeitas, as poucas horas de sono… e, se quando somos mais novos o nosso corpo vai sendo capaz de compensar os desequilíbrios consequentes, quando temos 30, 40 anos já há muita coisa acumulada.
Vejo o stress como um factor importante – um corpo que percepciona um “perigo” exterior, gerando uma resposta de stress fisiológica, porque possivelmente vai entender que as condições não estão reunidas para reproduzir.

O nosso corpo tem a sua inteligência própria e temos de reaprender a ouvi-lo.

Dito isto, mas atenção, acho óptimo os avanços na ciência e na Medicina, e nomeadamente na reprodução Medicamente Assistida! Há casais para os quais esta é, de facto, a melhor (ou mesmo única) opção! Mas a meu ver às vezes podemos e devemos avançar com calma… ajustar estilos de vida, cuidar da saúde, e se ainda assim a gravidez espontânea não for possível, pois então que enfrentem as técnicas de reprodução medicamente assistida (RMA), no melhor estado de saúde possível.
A Medicina Chinesa – seja pela Acupunctura, seja pela Fitoterapia – pode dar um contributo maravilhoso, como forma de tratamento, ou como adjuvante.

Existem muitas crenças de que a infertilidade é mais um problema feminino. O que pensam os homens?
Não consigo fazer uma generalização, eu tendo a observar que o estigma da infertilidade é maior quando há um problema predominantemente masculino, eventualmente até uma maior tendência para a negação ou desresponsabilização, mas em boa verdade também há muitos homens super abertos e disponíveis para o tratamento.
Eu aconselho o tratamento em casal (há sempre questões de saúde a cuidar em ambos) mesmo quando há um diagnóstico da medicina convencional objectivável num dos elementos do casal, precisamente porque vejo a fertilidade como um processo de casal.

Já alguma vez pensaste em te tornares enfermeira obstetra para dares continuidade?
Pensar sim, até já pensei. Mas a área da fertilidade é em si mesma tão complexa e rica, e sinto que ainda tenho aqui tanto que aprender e explorar! E é nesta área que me sinto realizada e feliz.

Qual a receptividade de outros profissionais de saúde aos tratamentos? -Acupunctura na infertilidade por exemplo – Como é que eles vêm o teu trabalho?
Eu sinto uma boa receptividade e respeito pelo meu trabalho.
Curiosidade e espanto de alguns também! Nunca lhes ocorreu tal coisa!
Ainda no ano passado fui convidada para falar nas Jornadas de Enfermagem de Saúde Materna e Obstetrícia sobre terapias integrativas na infertilidade. E tenho vários casais em consulta que foram aconselhados pelo seu médico ginecologista a recorrer a acupunctura, e tenho entre os meus clientes enfermeiros, médicos, fisioterapeutas…

Depois do sucesso dos tratamentos e da desejada gravidez acontecer, é habitual os pais levarem os seus bebés para os conheceres?
(Suspiro) É sim! É uma emoção. E é curioso que tendem a estar sempre muito tranquilos, como se o local lhes fosse familiar.

E é habitual manteres o contacto terapêutico com esses casais?
Sim, há uma ligação emocional que permanece sempre, muitas vezes amizade, e frequentemente no contexto terapêutico também, isto é, depois as mães voltam, para se cuidar (porque estão cansadas, ou com dor de costas (risos)).
Para mim este trabalho é digno de ser imensamente divulgado, precisamente por ajudar na resolução de um bloqueio que provoca tanta dor nos casais.

Quais os meios de divulgação que tens usado? Têm sido viáves? Ou seja, sentes que são suficientes para chegar a mais pessoas?
Curiosamente há dias uma senhora falava comigo num tom aborrecido pois “se soubesse que existia já tinha vindo cá antes! Devia ter um site!” :-)
A questão é que de facto existem poucas alternativas para quem não quer seguir o caminho da RMA.
O meio de divulgação tem sido acima de tudo o boca a boca e também pelo facebook, e a verdade é que tenho estado de agenda cheia. Mas tenho em construção um site, cujo objectivo será não só o da divulgação e informação, como ser um ponto de encontro de diferentes terapias não convencionais.
Depois da tão desejada gravidez, o parto.

Qual a tua opinião sobre a forma como abordam as mulheres em trabalho de parto?
Não posso opinar em detalhe sobre uma área que não conheço em proximidade. Mas sem dúvida que genericamente o cuidado me parece pouco humanizado e demasiado instrumentalizado. Demasiado distante da natureza. Demasiado apressado. Quando verificamos que o parto é uma experiência traumática para tantas mulheres, necessariamente algo está mal…

Por fim, qual a tua opinião sobre o parto na água?
Eu acho que o parto na água e o meu trabalho se cruzam: ambos são formas de oferecer alternativas e escolhas à mulher, de respeitar o seu corpo, de “desinstrumentalizar” os cuidados de saúde. Na minha opinião se acontecer em meio hospitalar, temos mesmo o melhor dos dois mundos.

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Muito gratas à Andreia por trabalhar com tanta paixão numa visão holistica da saúde da mulher.

texto original criado para as Mães D’Água www.maesdagua.org

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