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Mom next door – a Sara e a sua adopção

Mom next door – a Sara e a sua adopção

Será possível um/a filho/a de pais negligentes tornar-se num progenitor cuidadoso, disponível e carinhoso? A resposta vive na Sara e na sua história de vida.

O primeiro contacto que tive com a Sara foi através da página 3m’s quando, a propósito do desenvolvimento da linguagem da Letícia, me perguntou por formas de estimular a fala do seu filhote, o A. Após algumas mensagens, a Sara confidenciou-me ter-se identificado com o texto Para mulatinha até é bonita, no sentido em que ela, por ter sido adoptada, apresenta traços físicos distintos dos seus pais. Foi na sequência desta conversa que conheci uma experiência de vida inspiradora, em diversos sentidos, e que não podia deixar de partilhar (com a devida autorização).

 

Os primeiros anos de vida da Sara são recordados de forma pouco precisa. Teria perto de 5 anos quando a progenitora (a Sara recusa-se a tratá-la por mãe) a deixou em casa de uma tia avó; pelo que se recorda, enquanto lá esteve foi bem tratada. Cerca de um ano depois a sua vida sofreu uma reviravolta com o regresso da progenitora – “foi aí que o pesadelo começou”. Nessa altura viu-se privada dos direitos mais básicos de qualquer ser humano – liberdade, alimentação, afecto, protecção, respeito. Sara passava longas tardes sozinha em casa, trancada num quarto escuro, sem acesso a comida nem a brinquedos; ali permanecia várias horas até o companheiro da progenitora chegar do trabalho com uma sopa, a única refeição a que tinha direito. As suas idas à rua cingiam-se aos momentos em que a progenitora a incumbia de vender artigos que tinham em casa a uma vizinha idosa que, por ver uma criança a vender, comprava os bens. No meio disto, nasceu outra criança, um menino, que era tratado de forma privilegiada por ser o único filho do casal (o companheiro da mãe não era pai de Sara).

Embora naquela época fosse muito nova, algumas recordações permanecem bastante vívidas na memória de Sara. Entre elas emerge a do dia em que, na sequência de a progenitora a ter mandado ao café comprar um pacote de batatas fritas, e devido à privação alimentar, sentiu necessidade de comer algumas, o que lhe valeu umas valentes palmadas. Recorda-se também de ficar sozinha em casa com o irmão que deveria ter aproximadamente 1 ano, da responsabilidade que sentia e das estratégias que arranjava para o entreter.

Certo dia, sem qualquer aviso, a progenitora foi a tribunal, alegou que iria para Espanha trabalhar e despediu-se de Sara; posteriormente um carro da polícia encaminhou-a até uma instituição de acolhimento sem grandes explicações. Inicialmente sentiu-se perdida, tudo lhe parecia (e era) muito confuso, contudo rapidamente se adaptou ao novo lar (ali dispunha de melhores condições). A progenitora visitou-a uma vez, prometendo que em breve a iria buscar, mas tal nunca aconteceu.

Foi num passeio pelo jardim, um ano depois, que lhe mostraram duas fotos – um senhor e uma senhora – que no verso diziam “novos pais da Sara”. A isto seguiram-se algumas tardes de convívio até que uma semana depois abandonou definitivamente a instituição para viver com aquele casal que hoje, com muito orgulho, trata por pais.

A mãe da Sara confessa que os primeiros anos foram um verdadeiro desafio dado os “diversos traumas” da filha. O primeiro desafio foi o medo do escuro – depois de passar várias tardes a fio fechada num quarto escuro, Sara tinha dificuldade em dormir sozinha, o que implicou que inicialmente a mãe dormisse com ela no “quarto de princesa” – é assim que Sara descreve o primeiro quarto que foi pensado para si. Devido aos maus-tratos físicos experienciados, a filha também apresentava alguns medos específicos, como medo de cintos. Em simultâneo, sentia imenso receio de ser devolvida, quando a mãe interagia com outras crianças, entrava em pânico. Por vezes Sara “sentia-se revoltava” e partia alguns objectos em casa. Com a entrada na adolescência e o convívio com o que Sara hoje assume serem “más companhias” os desafios continuaram e surgiram os primeiros ataques de pânico.

Alguns anos depois, no final do ensino secundário, Sara começou a namorar com o actual companheiro, entrou no mundo do trabalho e finalmente encontrou maior paz interior. Hoje acredita que a paciência (os pais nunca a ameaçaram de ser devolvida para adopção), o carinho e a ausência de punições físicas por parte dos pais foram a chave para o equilíbrio alcançado.

Segundo as palavras da mãe de Sara, um processo de adopção de uma criança “mais velha” envolve algum receio inicial de que nem tudo corra pelo melhor; não obstante, acredita que o poder do amor e da compreensão permitem superar os diversos obstáculos. Frisou ainda a importância de se adoptarem crianças mais velhas, pois estas existem e têm o sonho de vir a ter uma família, como qualquer criança; ainda que os desafios possam ser maiores, as recompensas também serão.

Actualmente Sara tem 27 anos, é mãe do A., um doce bebé com quase 9 meses, e vive com o companheiro. O compromisso de Sara para com o pequeno A. é bastante claro – procura ser para o filho tudo o que os seus pais foram para si, enchendo-se de orgulho cada vez que fala deles.

Recentemente encontrou a progenitora no facebook, contudo a ausência de arrependimento levaram a que Sara escolhesse não manter contacto.

Com base nas diversas experiências vividas, Sara, tal como a mãe, enfatizou a importância do amor e do carinho no desenvolvimento da criança. Salientou ainda a necessidade de se encarar a adopção como uma escolha para a vida, não como uma tentativa, em que as crianças “não se adequam” e por isso são devolvidas como objectos – “com muita paciência todos podemos ser moldados“.

Decidi partilhar a história da Sara com vocês por diversos motivos. Em primeiro lugar, por se tratar de uma história em que o amor e a perseverança venceram os fantasmas do passado – estes ingredientes são tão potentes no desenvolvimento saudável. Em segundo lugar, para vos (nos) sensibilizar para a adopção de crianças mais crescidas, mostrando que apesar de todos os obstáculos é possível e pode ser realmente recompensador para todos. Por último, para vos provar que a menina que vive em nós e que reemerge quando nos tornamos mães pode ser acarinhada/escutada e permitir-nos fazer melhor do que fizeram connosco – tenhamos a coragem de usar as experiências menos boas como motivação para nos superarmos e de assim combatermos a perpetuação de estilos parentais pouco saudáveis.

Fonte: 3m’s
https://3mssite.wordpress.com/2017/08/23/mom-next-door-a-sara-e-a-sua-adopcao/

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