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Por que é tão difícil tornar-se adulto?

A adolescência é um período complicado, sobretudo nas fases de maior afirmação da personalidade, um processo que tende a gerar reações nem sempre fáceis de lidar e compreender.

Da minha experiência com jovens adolescentes, constato uma crescente resistência ao processo natural de crescimento e entrada na idade adulta. Algo que, por exemplo na geração agora com 40/50 anos seria impensável visto que tínhamos uma verdadeira pressa em crescer e sermos adultos.

Na actual geração que se encontra entre os 15 e os 20 anos, com um maior foco por volta dos 16/17 anos, é comum encontrarmos a recusa da realidade e uma atitude angustiada de se manterem eternamente crianças. Esta recusa é alimentada por muitos factores: factores culturais, sociais, fisiológicos e familiares. Foquemos-nos por agora nas consequências mais observadas: evidente falta de objectivos, descrença e desesperança total no futuro, uma visão limitada e negativa da realidade tomando-a como o todo, baixa auto-estima e perfeccionismo idealista paralisante.

Crescer sem atritos, sem fricções é tão prejudicial como crescer sem amor e segurança. Na desesperada tentativa de colmatarmos a falta de tempo e atenção impostas pelo ritmo alucinado que muitos vivem (por não saberem viver de outra forma ou por necessidade), ou de compensarmos uma ausência, uma situação ou evento traumatizantes, protegemos e tudo damos e fazemos para que os nossos filhos não sofram, para que nunca sintam isto ou aquilo. Ao fazê-lo estamos a criar padrões de elevada frustração pois os jovens acabam por não saberem lidar e gerir as suas emoções. Entramos então num ciclo vicioso: a zona de conforto do adolescente é desconfortável, traz-lhe sofrimento, mas traz-lhe também ganhos maiores no que toca à manutenção da sua vontade de não crescer (sobrevivência), o que lhe permite utilizar (consciente ou inconscientemente) esse sofrimento para manipular os que o rodeiam e assim manter a tal zona de conforto…

Na verdade, o que muitos estamos a fazer é a evitar que os nossos filhos desenvolvam a sua inteligência emocional. Com a melhor das intenções. Imbuídos de amor…mas chega a um momento em que talvez urja pararmos e reflectirmos no que está a acontecer com os nossos jovens e de que forma podemos aplicar o nosso amor de uma forma mais saudável e produtiva para eles, que inevitavelmente serão os adultos de amanhã. A inteligência emocional é a capacidade de entender, administrar e expressar correctamente os sentimentos, lidando da mesma forma com as emoções de outras pessoas. É uma habilidade essencial para a formação, desenvolvimento e a manutenção de relacionamentos, tanto pessoais quanto no ambiente de trabalho. É uma habilidade que não é inata ao ser humano: treina-se, aprende-se e molda-se.

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1ª) Porque é muito mais fácil culparmos os outros do que nos responsabilizarmos por nossas escolhas e atitudes.

2ª) Porque é muito mais fácil vivermos com nossas ilusões do que encararmos a realidade.

3ª) Porque é muito mais fácil buscarmos alguém que cuide de nós, que aceitarmos que cabe só a nós cuidarmos de nós mesmos.

4ª) Porque precisamos aceitar que não controlamos a vida e que cabe a nós somente aceitar e responder ao que ela nos traz.

5ª) Porque precisamos ter clareza que não somos “donos” dos outros e o que nos cabe é aceitar e viver com aquilo que eles decidem sobre a vida deles.

6ª) Porque é muito difícil aceitar que a vida não está contra ou a nosso favor, ela é somente a vida e acontece sem que o que pensamos ou queremos seja levado em conta.

7ª) Porque é muito mais fácil sentirmos-nos vítimas do que protagonistas da nossa história.

8ª) Porque é muito difícil perceber que o mundo não “gira ao redor do nosso umbigo”.

9ª) Porque não é fácil aceitar que a vida não nos deve nada, que ela não é justa ou injusta e que sermos “bonzinhos” ou “mauzinhos” não nos garante um passaporte contra o sofrimento.

10ª) Porque é difícil lidar com a constatação que existe um “espaço vital” existencial em que somos absolutamente sós, e nesse, ninguém pode nos fazer companhia.

11ª) Porque precisamos aceitar, sem reclamação ou revolta (que são absolutamente inócuas, ou pior, contraproducentes) que a vida é feita de luz e sombra; de perdas e ganhos.

12ª) Porque precisamos aceitar que não existe essa coisa de verdade absoluta e que cabe a nós decidirmos nossas escolhas em uma “nuvem” de ambiguidade e incertezas.

São inúmeras as razões; sim, é difícil tornar-se adulto. E, claro que adulto no sentido pleno, em termos não só físico, que todos se tornam, mas do ponto de vista psicológico, social, ético e espiritual.

Tornar-se adulto no seu sentido completo parece, de facto, algo muito difícil, penoso, sofrido e coisa rara hoje em dia: a nossa cultura infantilizada e massificada promove isso mesmo. O massacre publicitário e consumista é hoje constante. Por exemplo,bastará passarmos por um qualquer liceu para verificarmos a tendência de todos serem iguais, obedecendo a uma apertada idealização da imagem.

Tornar-se um ser humano adulto é uma escolha, uma busca, um processo e uma conquista. É ao aceitarmos a vida nos seus próprios termos e de encararmos os acontecimentos da nossa vida e que nos rodeiam como degraus de aprendizagem, que adquirimos a posse da liberdade de buscar sermos nós mesmos em toda a nossa plenitude. É ao dizermos SIM à nossa condição humana e a nosso processo de crescimento e maturidade que tomamos as rédeas da vida nas nossas mãos, usufruindo da aventura de estarmos VIVOS. Com gratidão. Com respeito por nós mesmos e por tudo o que nos rodeia e que possibilita, em cada momento das nossas vidas, esta jornada única que é a nossa.
E há muitos adolescentes e jovens que encaram a vida assim. De facto, não é a realidade que muda…urge então reflectir e …agir.

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