Artigos

Reconhecer o Sofrimento

Reconhecer o Sofrimento

Diria que, primeiro que tudo, num processo consciente próprio, devemos parar e reconhecer que existe dentro de nós uma parte que está em sofrimento, uma parte de nós que tem dores profundas que tornam a nossa vida e os nossos relacionamentos tão difíceis e (mais “perverso”), porque queremos esses relacionamentos como forma de nos protegermos do sofrimento interior ou como forma de suprimir as necessidades emocionais que não foram satisfeitas por nós mesmos.

“A única maneira de ir além do sofrimento é obter a revelação de quem você realmente é. O amor é o resultado dessa revelação. Ele é uma fragrância do Ser, do Eu real. Uma coisa é inseparável da outra. Assim como a natureza do sol é iluminar e aquecer; a natureza das flores é perfumar e revelar sua beleza e cores, a sua natureza é amar. Se o amor não está fluindo, não se engane: a revelação não aconteceu; você ainda não sabe quem é. Continue batendo na porta.”Sri Prem Baba

Todos dispomos de uma programação inconsciente e para grande maioria existe a crença de que não é seguro abrir o coração. Existe um medo primário que nos mantém longe de tudo o que possa despoletar essa abertura do coração ao amor próprio e ao amor incondicional, fazendo com que nos sintamos sobrecarregados pela dor e sofrimento.

Uma das coisas que torna os relacionamentos tão difíceis é a forma como estamos permanentemente a criar formas de nos protegermos do outro. Quando realmente amamos de forma consciente, não queremos colocar no outro qualquer tipo de dor ou sofrimento.

Sabemos que não devemos sobrecarregar o outro com emoções que são suas, mas na verdade, quando o sofrimento é o que habita a nossa mente e as nossas emoções, quando olhamos à nossa volta, tudo que conseguimos observar em todos os lugares e pessoas é sofrimento como reflexo interior.

Na realidade, como digo nas terapias e nos grupos, somos todos pessoas feridas à procura do mesmo – compreensão e amor – para podermos deixar a nossa fragilização sair de forma segura. Na verdade, a maioria das pessoas caminha pela vida a sorrir umas para as outras, a conversar e a conviver.

Alguns conseguem ter conversas e conexões maravilhosas e gentis, mas, por detrás, o medo e o sofrimento estão lá. O que aconteceu é que, tal como aprenderam a esconder isso de si mesmos, aprenderam ainda melhor a esconder dos outros. Toda a sociedade e cultura reforçam a ideia de não poder existir fragilização, de não podermos sentir a dor do outro e muito menos dar espaço a que alguém traga a sua dor para as nossas vidas.

Criámos uma sociedade onde só a Felicidade é permitida nas relações uns com outros. A comprovar isso temos as redes sociais onde só existem pessoas felizes, com vidas de sonho e ideias de ilusão da felicidade. Alguns abrem-se ao campo de sofrimento do outro por medo de também serem rejeitados, por medo de virem a precisar da pessoa e que depois ela não “esteja lá” para eles.

Mas na realidade somos “programados” para viver só na felicidade e na beleza, isto porque, se outro é o espelho de mim mesmo, quando o outro me aborda com dor e sofrimento, existe uma parte de mim que reconhece aquilo que outro está a viver e a sentir e que se recusa a reconhecer.

Ver apenas a felicidade e a beleza alimenta o ideal de perfeição de si mesmo, não reconhecendo que também o sofrimento faz parte da experiência de si . Quando nos abrimos ao nosso sofrimento e do outro, quando estamos disponíveis para fazer isso, somos capazes de reconhecer que existe uma natureza de sofrimento dentro de cada ser e que essa natureza precisa de ser acolhida e compreendida no outro e em nós mesmos. Para viver a alegria é preciso passar os diversos estágios de evolução da consciência. E o sofrimento é um deles.

A compreensão de como ele habita o campo das emoções e da mente; a forma como ele interage em cada momento condicionando quem somos; a forma como ele gere impulsos inconscientes em nós mesmos sejam positivos ou negativos. Na realidade, todos nós temos uma programação; aspectos da personalidade que sabotam a felicidade porque criou um conjunto de mecanismos de defesa para proteger a entidade de sentir dor e sofrimento.

Estes mecanismos, que querem à força proteger-nos dos choques de dor, são os mesmos que deram origem às matrizes da vingança e dos ciclos viciosos de sofrimento nas relações e as suas mais diversas manifestações e feridas emocionais. Quando somos tomados pelas emoções do Eu Inferior, onde residem as feridas emocionais que não queremos sentir, onde existem os mecanismos que não temos como conscientes, já estamos a entrar no sofrimento, porque, a partir do momento em que por exemplo os ciúmes estão ativados, a pessoa vai agir com a mente primitiva no programa operacional que tem para se defender do sofrimento e a identificação do eu inferior já está despoletada. A pessoa vai passar a pensar, falar e agir de acordo com esse ciúme.

Daí a sentir raiva, revolta, ódio e ativar a matriz da vingança é um instante. Sem ter consciência, vai querer controlar o outro, quando o outro é campo de oportunidade de ter consciência das suas feridas emocionais e das suas matrizes do eu inferior que condicionam o seu ser. Quando nos identificamos com uma emoção, com o sofrimento, passamos a ser essa partícula. Nesse estágio, a raiva de si mesma, a revolta de si mesma e o condicionamento da mente, que crê que não pode ser forma diferente, geram mais sofrimento.

Quando aprendemos a reconhecer que existe um aspeto do nosso ser que dá total sustentação ao sofrimento de uma forma inconsciente, quando abrimos a possibilidade de estarmos a alimentar isso com máscaras, pensamentos e ações inconscientes que apenas alimentam mais e mais esse sofrimento devido à natureza inconsciente.

Quando assumimos a responsabilidade de querer conhecer quem somos e como o nosso sistema operativo individual cria essas realidades em que somos tomados pela raiva, revolta, ciúmes, vícios, ódio, culpa, julgamento e tantas outras emoções, existe a consciência de que vai passar, sabemos que essas emoções foram convidadas por nós mesmos até que a nossa vontade de transformar conscientemente seja mais forte e passemos a agir de forma construtiva e não destrutiva em relação a nós mesmos.

Sem o reconhecimento do sofrimento como realidade inerente ao processo de consciência, continuamos a alimentar o programa da mente primitiva e do sistema operativo inconsciente.

Aproveite o mergulho cósmico que cada um de nós está a ser convidado a fazer e assuma o compromisso consigo de reconhecer onde habita esse sofrimento interior., deixo-Vos o video de Sri Prem Baba maravilhoso.

Abraço com Amor

Ana Tavares

Se gostou deste artigo partilhe com os seus amigos

Veja também