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Já repensou o seu relacionamento?

Já repensou o seu relacionamento?

Discutir uma problemática tão séria, como a questão da crise dos relacionamentos na actualidade, remete-nos para dois factores centrais: fazer um profundo balanço e reflexão acerca de toda a nossa história afectiva, incluindo todas as ocasiões em que estivemos apaixonados, assim como o resultado de todas essas experiências; e refletir se no decorrer da vivência afectiva sentiu que o medo do amor era algo que emanava de si próprio, do meio circundante, ou da junção de ambos. É preciso também que cada pessoa assuma a responsabilidade por seu determinado histórico emocional, deixando de lado a tentação de imputar aos outros aquilo que sente ser o seu fracasso pessoal.

A experiência clínica comprova que quando a pessoa fracassa em determinado projecto afectivo, seja um namoro ou casamento, estes jamais foram prioridades absolutas do mais profundo íntimo dessa pessoa, sendo apenas representações ou papeis que se sentiu forçada a tomar de acordo com a pressão social. É o tão comum viver o que se sente que é correcto para os outros e para a sociedade em geral, e não viver de acordo com os nossos sentimentos e vontades próprias. Este conceito pode parecer um tanto leviano se levarmos em conta todo o sofrimento, depressão, desespero, ciúmes e outras paixões intensas despertas quando há uma derrocada emocional. Todavia, temos que entender que a intensidade do sofrimento em determinada situação afectiva, não significa que a prioridade da nossa alma seja o amor, mas tão somente o reviver de uma situação antiga de carência e desamparo, amplificado pelo moderno medo colectivo da exclusão social em todos os níveis.

Em vários outros estudos clínicos o cerne do problema da questão amorosa é o facto de vários outros sentimentos se agregarem na mesma, distorcendo por completo a sua essência. Assim sendo, não ficará difícil perceber-se que sentimentos como: orgulho, inveja e ciúmes quase sempre se sobrepõem ao amor nos relacionamentos em geral. Na psicologia é comum a afirmação de que a pessoa capacitada para o amor é aquela que venceu todos os traumas e barreiras de seu desenvolvimento familiar, libertando-se de mágoas antigas e recalcamentos que se encontram presentes no individuo mas ocultos, e cuja desconstrução, análise e saneamento são condições primordiais para o crescimento e desenvolvimento da pessoa como individuo livre e consciente, e preparado para se amar a si mesmo e amar os outros sem corromper esse sentimento com quaisquer outros. Embora tal facto seja indiscutível, o grande problema nesse processo dá-se quando determinado sujeito, na luta pela libertação das figuras descritas, acaba aniquilando quase por completo a representação masculina ou feminina da afectividade. O resultado é que o emocional da pessoa fica preso numa total história de dor e sofrimento, atrofiando a sua capacidade e coragem para um relacionamento genuíno de entrega e retribuição.

Após toda a história cultural e social dos movimentos sociais, em conjunto com a teimosia do ser masculino em absorver por completo a importância da capacidade emocional, temos um quadro de relacionamento entre homens e mulheres que mais se parece com as trincheiras da 1ª guerra mundial, não ocorrendo avanços significativos de ambos os lados, apenas a manutenção de uma atitude bélica despropositada e constante, não resolvendo as necessidades pessoais dos envolvidos. Para a nossa maquiavélica sociedade de consumo todo esse processo é comemorado, pois como todos sabem, quanto maior a insatisfação pessoal e ansiedade, maior será o desejo desenfreado de consumo, para compensar o complexo de inferioridade resultante da carência emocional.

Se alguém é excluído ou se exclui da troca amorosa, necessitará da compensação das questões materiais ou sucesso profissional para provar que pelo menos em uma área da sua vida obteve êxito. Se não tiver mais nada, o seu Ego irá consumir-se até á exaustão revivendo a dor e raiva, e encontrando apenas forças nesse processo, como uma bola de neve. Infelizmente estes processos são incentivados socialmente, permitindo que o sujeito se esconda de si mesmo lançando um manto ilusório sobre a sua real situação. Em vez de buscar as causas reais, a pessoa refugia-se de si mesma em sentimentos direccionados aos outros intervenientes no seu drama pessoal: raiva, ódio e vingança.

HIPNOSE, HIPNOTERAPIA, RelacionamentosOs conflitos actuais nos relacionamentos são os espelhos da impotência social que todos vivenciam, desviando para o privado toda a frustração do social. A luta no processo afectivo é um dos preços pagos pela ausência do sentimento de comunidade e sociabilidade, como dizia o psicólogo contemporâneo de FREUD, ALFRED ADLER.

A busca actual pela perfeição nas relações, nada mais é do que o desejo de fuga do medo terrível da entrega, que sempre se mascara no tédio e cansaço de construir um relacionamento. A questão central para a reflexão não é se um relacionamento sempre gera dor, mas qual neurose, desculpa ou conflito que todos se utilizam para não amar? Outro psicólogo histórico da psicologia, WILHEM REICH, chamou todo o processo acima descrito de “peste emocional”, sendo que o sofrimento relatado nas relações era um subproduto da profunda repressão sexual imposta pela sociedade. Apesar da pretensa “revolução sexual”, este conceito ainda se encontra extremamente actual, pois nada mais ocorreu do que uma falsa liberalidade genital que acarretou um crescente tédio e pavor da entrega como disse acima; apenas devemos acrescentar que a “peste emocional” não é somente fruto da repressão sexual, mas também da interdição dos mais sublimes sentimentos humanos: dedicação, compaixão, estímulo, companheirismo e disponibilidade.

Assim, estas qualidades estão quase sempre ausentes dos relacionamentos que fracassam, bem como a vivência sexual saudável e sem complexos ou preconceitos. As primeiras são vistas como fraquezas, e o sexo é visto como moeda de troca, arma, ou como algo “vergonhoso”, no sentido em que a pessoa tem um problema afectivo com ela mesma, sendo incapaz então de viver a afectividade de uma forma natural e saudável.

Quando cada parceiro literalmente trava a vida do outro, é porque se desenvolveram a inveja e ciúmes no relacionamento. Neste exacto ponto mais vale destruir a criatividade e potencial do companheiro, do que tolerar a submissão afectiva presente no ciúme e possessividade. A simples ausência do diálogo já é a prova máxima da destrutividade do relacionamento. Este é um mecanismo presente mas raramente reconhecido atempadamente.

Claro que cada um gosta de representar determinado papel conforme as suas experiências de vida.

Há o “mártir”, que se auto anula constantemente, escondendo a sua fragilidade numa pseudo dedicação ao outro, quando na realidade seus esforços apenas se dirigem não para a solidificação do real amor no relacionamento, mas tão somente para coisas secundárias, como cuidados materiais ou tarefas domésticas como exemplos gerais deste tipo. O impacto do mártir nos relacionamentos é a desenergização de ambos os parceiros, pois não ocorre nenhuma troca significativa da afectividade, apenas o cumprimento de papeis rígidos. O segundo tipo é quase que uma extensão do primeiro, o “apaixonado”, sendo que reclama constantemente que não há reciprocidade do seu esforço sentimental por parte do outro. Sente-se submisso na relação, e ambos os tipos acabam por quase sempre por ser trocados por outra pessoa. Obviamente não estou querendo dizer que as coisas inexoravelmente acabam dessa forma, sendo que há felizmente pessoas apaixonadas que são correspondidas. Cabe aqui a análise da problemática dos relacionamentos. Feita esta ressalva gostaria de voltar à discussão dos tipos psíquicos nos relacionamentos.

O ciumento é uma representação extremamente dolorosa da vivência afectiva, sendo que o mesmo é refém quase que absoluto de sua insegurança. É importante ressaltar que os ciúmes são sempre uma via dupla (insegurança e delírios imaginários da pessoa presa neste sentimento, e desejo de poder e vaidade latente do parceiro). É muito comum as pessoas inocentarem quem sofre com as cobranças do ciumento, esquecendo-se que uma relação tem o caráter de potencialização dos sentimentos, assim sendo, determinada pessoa presa no ciúme recebe constantemente um reforço inconsciente do seu parceiro para que permaneça em sua prisão pessoal, pois todos acabam por se regozijar na exibição de seu poder pessoal.

O tipo “tímido” é o mais destrutivo de todos os citados. A timidez não é o que comumente as pessoas chamam de acanhamento, envergonhado, pouco comunicativo ou medo do contacto social. A raiz da timidez é um jogo perverso onde a pessoa não almeja nenhuma divisão de seu afecto para com o outro, desejando apenas extrair suas necessidades pessoais, que nada mais são do que um profundo ódio interno arcaico, por achar que ocupou uma posição secundária na família. O tímido lida com seus sentimentos perante o social como se fosse uma espécie de “caixa preta”, não revelando nunca a sua intimidade. No ser masculino o tímido revela-se como disse acima no ódio em relação às suas origens familiares e posição que ocupava na mesma; na mulher a timidez é notada na extrema dependência das figuras parentais, principalmente a materna.

Por último há o tipo “salvador”, que espelha todas as necessidades não expressas do parceiro, desenvolvendo-se uma espécie de relação terapêutica entre ambos. No começo tal relação é extremamente benéfica para o parceiro carenciado, mas não demora muito o desenvolvimento do sentimento de ódio e inveja perante o potencial do outro, pois é notório o complexo de inferioridade perante a pessoa que detêm o poder e competência na questão afectiva. O mártir começa a queixar-se que as suas necessidades nunca são atendidas, não percebendo que a sua atitude também é uma fuga da entrega e do amor, ocultando a sua problemática através da constante exaltação da problemática do outro.

Não existe um relacionamento que não seja o espelho dos mecanismos sociais e económicos, e o verdadeiro amor é uma espécie de atalho que se cria quando reflectimos sobre todas essas influências citadas. A psicologia social ensina-nos que todas as experiências sociais são vividas também no plano emocional, assim sendo, não há uma só pessoa que nunca tenha sentido em alguma altura da sua vida a sensação caótica de miserabilidade e exclusão no plano pessoal.

O leitor indagará o porquê da dificuldade de mudar o quadro acima descrito. O medo da mudança tem uma profunda raiz na religiosidade, pois a pessoa desenvolveu a crença de que apesar de todo o sofrimento, a sua relação ainda sobrevive, mesmo quando já está evidentemente morta. O novo é sempre visto como uma perda quase irreparável. Historicamente, qualquer novo comportamento humano nunca teve o apoio dos “deuses”, ao passo que a auto comiseração possui a bagagem de milénios de religiosidade impregnada. É absolutamente ingénua a pessoa que não percebe que num relacionamento há dois tipos de juramento: o primeiro baseia-se no desejo primeiro sexual e depois também espiritual, atracção física (a primeira possível entre seres humanos, que são para além de tudo, animais mamiferos) e mental (que pode decorrer ou não da primeira) e prazer de estar com a pessoa, clamando por prolongar o máximo possível tal encontro, seja através de um namoro ou casamento; o segundo juramento que poucos percebem é a necessidade de vivenciar determinado potencial destrutivo com o outro, abrindo caminho para todo o tipo de emoções negativas ou destrutivas: inveja, depressão, culpa, ódio, arrependimento e ciúmes. Este último é como qualquer vício que no começo desperta um prazer, porém, com o decorrer do tempo acaba por aniquilar por completo a energia da pessoa. Em suma, todo o potencial afectivo apenas acaba sendo vivenciado pela dor. Não perceber os juramentos das duas partes da personalidade(consciente e inconsciente) é simplesmente condenar a relação ao término absoluto. Enfim, é fundamental observar se dentro de um relacionamento desejamos a vivência da troca do prazer, ou apenas usar o mesmo como palco de todos os dramas passados não resolvidos.

Diante das considerações citadas, não é difícil imaginar o medo de qualquer envolvimento. Porém, uma das maiores tolices perpetradas pela maioria das pessoas é a fuga da dor ausentando-se de uma relação. A escolha passa então por dois pólos distintos, mas complementares em termos de infelicidade; por um lado medo nos seguintes níveis emocionais: frustração perante o parceiro, temor de ser traído, tédio, incompatibilidade de caráter ou de ações em conjunto, perda gradativa da libido e arrependimento. Caso a escolha se dê na tarefa simplista da solidão para se evitar qualquer dor afectiva teremos: angústia, sensação de vazio interior, manifestações de doenças psicossomáticas,e ansiedade mórbida, que pode ser definida como a certeza interna da incapacidade de se resolver determinado problema.

A ansiedade também é a concentração em determinado objetivo da vida, mas com a sensação crescente de que algo maior foi abandonado; um dever absoluto adiado, gerando eterno conflicto. O dever citado faz parte do material psíquico do passado da pessoa, que tomou quase que por completo a vontade da mesma, inserindo toda a nova experiência no contexto da dor pretérita. A ansiedade é a eterna e impagável dívida com o mais profundo sofrimento; o “tutor” omnipresente que restringe eternamente a satisfação e quietude da mente.

Claro que há a ansiedade construtiva, que nos leva a uma maior dedicação e esforço na consecução de determinado objetivo. Todo o potencial emocional de um ser humano só é direcionado para algo saudável quando há a troca, quando se recebe compensação, caso contrário toda essa energia só alimentará a autocomiseração e ódio interno por si ou externo pelos outros.

Se observarmos os transtornos alimentares e preocupações estéticas de nossa sociedade teremos a chave para o dilema colocado anteriormente. Como todos estando “famintos” podem recusar a troca emocional? Vivemos em constante anorexia e bulimia emocionais, e todo culto estético é a prova de que a sedução já não tem mais nenhum sentido íntimo, fora à competição, vaidade ou medo de ser excluído como pessoa. A beleza é a ilusão mais espetacular contra o desafio diário e na maioria das vezes tedioso de um relacionamento. É a droga natural que a sociedade moderna cultua para fugir a qualquer preço do temível complexo de inferioridade. Os efeitos colaterais sempre serão: medo, ciúmes, sensação de jamais ter sido amado, mas apenas o esforço incessante na esfera da sedução. Todos no passado tinham o referencial do casamento como fonte do amor, independentemente dos dramas causados pelo mesmo; talvez a primazia hoje em dia seja a beleza, segurança económica ou emocional.

O ponto que gostaria de enfatizar é que a sobrevivênvia de uma relação só ocorre se a tratarmos como algo a ser explorado diariamente, refletindo constantemente sobre as imagens do passado fixas na memória de ambos os parceiros, que obscurecem novas condutas para a relação. A atração é apenas o começo da exploração de tão delicada tarefa, que é o encontro de dois seres. Para aqueles que genuinamente buscam a transformação, não tardará a descobrirem que a raiz do amor é a permissão para que o parceiro altere significativamente nosso destino, aceitando que ambos possuem a vontade e potencial para tal tarefa.

O desafio é conseguir que a pessoa reflicta honesta e seriamente sobre a sua temática emocional de vida, indo além da superficie e buscando as causas escondidas e profundamente enraízadas, para a sua atitude e quadro clinico…a unica forma de os alterar e sanar.

(Texto adaptado de um original de Dr. Antonio Carlos A. de Araujo)

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