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Qual a importância de resgatar a nossa criança interior?

A criança que fomos está presente em nós e participa em muitas das nossas atitudes e tomadas de decisão. Contudo, muitas vezes essa criança carrega emoções que não foram libertadas e que causam uma ferida não cicatrizada.

Algumas das nossas atitudes, acções e reacções em adultos são largamente influenciadas por essa criança por vezes zangada, por vezes revoltada, quantas vezes, incompreendida e ferida. Por trás de algumas das nossas “formas de ser” – como gostamos de lhes chamar – estão a fuga à dor e a busca do prazer, inatas das crianças. No nosso caso, a forma especifica como, em crianças, registámos determinadas situações e como aprendemos a lidar com as experiências. A forma como determinados acontecimentos e momentos da nossa primeira e segunda infância foram registados pela criança que fomos continuam bem vivos em nós, no nosso inconsciente. Muitas dessas situações já as resolvemos racionalmente e arrumámos, mas as emoções nelas contidas continuam a existir, bem vivas dentro de nós, nesse lugar onde a criança vive, e só quando aceites e libertas deixam efectivamente de nos influenciar, permitindo uma vivência mais em consciência e sintonizada com quem somos hoje e o que desejamos para a nossa vida e para as nossas relações.

Em crianças absorvemos tudo o que se passa directamente connosco ou ao nosso redor sem qualquer filtro, somos como que esponjas e os registos são feitos automaticamente na proporção com que os vivemos, sentimos ou como nos são apresentados. Não desenvolvemos ainda capacidade para filtrar ou ressignificar as situações que nos impactam.

Não precisamos de falar das situações óbvias de abusos físicos, ou das situações mais violentas…de facto, as frases repetidas – muitas das vezes sem qualquer intenção negativa por parte dos adultos de referência que rodeiam a criança – vão ferindo e moldando a criança. Quantas vezes ouvimos (e já repetimos aos nossos filhos) : “mas será possível que não aprendas nada?”, “Quantas vezes já repeti, és burro?”, “devias ser como o teu irmão/filho de alguém”, “não me interessa o que fizeste”, “ não tenho tempo para isso”, “ és igualzinho á mãe/pai/avó” “ assim não vais ser ninguém na vida” “ mas tu não pensas?”. Nem sempre essas frases vão ferir de forma permanente a criança, mas, dependendo de quem as diz, da forma como as diz e da situação, uma única vez pode ser o suficiente para abrir uma brecha na auto estima dessa pessoa que está ainda em formação.

Todos nos recordamos de situações com colegas de escola, até do jardim de infância, em que nos sentimos humilhados, são brincadeiras típicas dessa faixa etária, mas quantas vezes não levaram á tristeza e ao choro? E mais tarde, no 1º e 2º ciclo, quantas situações ficaram recalcadas na nossa criança?

Nós crescemos, mas a nossa criança interior  mantém-se criança dentro de nós, acompanhando-nos e influenciando inconscientemente a visão que temos de nós mesmos e do mundo que nos rodeia, assim como a nossa forma de interagir nas nossas relações quotidianas.

Assim, alguém que quando criança, foi repetidamente chamado de preguiçoso, pode tornar-se um workaholic, numa clara forma de compensação. É como se a criança gritasse “eu não sou preguiçosa”. Eu  trabalho mais do que quem me considera preguiçosa!”.

Ou alguém que foi repetidamente humilhado na escola por ser mais gordinho, pode em adulto ter um comportamento obsessivo em relação ao seu corpo e à alimentação, recorrendo a todas as técnicas e produtos para se manter magro, e considerando-se gordo mesmo quando é, de facto, uma pessoa magra. Mais uma vez, estamos perante uma criança ferida que necessita de ser abraçada.

A criança é dependente por natureza. E não ter com quem contar para suprir as suas necessidades também resulta em feridas emocionais profundas e difíceis de cicatrizar. As necessidades de carinho, protecção e alimento são as mais básicas, mas há outras mais subtis, como a necessidade de fantasiar, brincar, estar com outras crianças, aprender e ter limites definidos, ter regras saudavelmente introduzidas na sua vida.

O modo como as dificuldades são transmitidas às crianças determina como ela vai digerir a situação. Afinal, todos nós, adultos e crianças, interpretamos aquilo que percebemos, mas essa interpretação baseia-se sempre na nossa experiência e conhecimento…uma criança não tem ainda a estrutura necessária para compreender correctamente muitas situações. Uma separação dos pais, por exemplo, pode ser vivenciada pela criança de diferentes maneiras, dependendo de como a situação é vivida pelos progenitores, pela família, e como lhe é passada. A criança pode ser exposta à realidade nua e crua da situação, e ainda não ter condições psicológicas para entender plenamente o alcance dos factos, o que poderia levá-la a uma interpretação muito distorcida, até mesmo assumindo a culpa dessa separação.

A melhor abordagem para contar algo difícil a uma criança é a verdade, mas com exemplos baseados num contexto e linguagem adaptados à criança e à sua idade. E, sempre que possível, assegurá-la que ela continua e continuará sempre a ser amada.

Por outro lado, esconder a realidade apenas leva a que a criança cresça num mundo que não existe, e que acabe por tornar-se um adulto que não tem as ferramentas necessárias para lidar com o mundo real.

Muitos de nós passámos por estas situações, e os nossos pais fizeram o melhor que sabiam e podiam. Não se trata de culpar ninguém por aquilo que somos hoje, nem de suscitar ressentimentos para com as nossas famílias. Trata-se sim de tomarmos consciência dos mecanismos automáticos que ao longo do nosso crescimento vão registando respostas e reacções a determinados momentos e situações de maior intensidade emocional.

É preciso lembrar que a criança está em formação, física, psicológica e emocional. A criança interior estará sempre presente na visão de mundo de cada adulto, nas suas tomadas de decisão. É preciso que essa criança interior seja resgatada e cuidada, para que o adulto não precise ter reacções próprias de uma criança ferida, como birras, lamúrias e provocações inúteis mas muitas vezes destrutivas.

Uma criança interior bem cuidada permite que o adulto seja capaz de tomar decisões na sua vida baseadas num equilíbrio entre razão e emoção possibilitando o caminho para uma vida mais alegre e menos angustiante.

O resgate da sua criança interior pode ser o início de uma viagem de auto-descoberta que irá desbloquear muita da tensão emocional que ainda está guardada na sua memória inconsciente e celular, permitindo-se viver uma vida mais plena e consciente.

E ao libertar a sua criança poderá iniciar um trabalho de equipa, em que por um lado, irá libertar a sua dor emocional e curá-la, mas também poderá reaprender a brincar, a rir, a ser espontâneo e livre, e a ver o mundo com os olhos da sua criança, um mundo repleto de magia, de oportunidades e de aventuras que valem a pena ser descobertas, encaradas e vividas!

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